LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CHE ENTRATE

 Por Fernando R. F. de Lima.
            Meu sincero desejo era que ontem, dia 26 de outubro, a vitória do PSDB na figura de Aécio Neves se concretizasse nas urnas. Não deu. O Petistão, este país estranho situado acima da linha de capricórnio, resolveu dar a vitória ao poste. A presidAnta se reelegeu para mais quatro anos de trapalhadas.
            Eu gostaria que Aécio fosse eleito porque acredito sinceramente que o PSDB tinha a equipe mais preparada para enfrentar os desafios institucionais que se descortinam no país. Mas apesar de preparada, os desafios são muito grandes, e talvez grandes demais até mesmo para a equipe do PSDB. Vou listar algumas das grandes dificuldades que o próximo governo irá enfrentar.
            A mais óbvia delas é a inflação. Estamos acima do teto da meta no acumulado de 12 meses, e já estamos em outubro. O Natal não costuma se uma época de queda nos preços, o que coloca alguma dúvida sobre a capacidade do governo de colocar a inflação no teto da meta este ano. Ainda há um represamento absurdo nos preços da energia elétrica (mais de 30%), e também nos transportes coletivos, o que tem causado prejuízos superiores a R$ 40 milhões mensais na prefeitura de Curitiba. Imagine o déficit em outras capitais. Isso tudo são custos que se acumulam.
            Outro problema não tão óbvio, mas igualmente preocupante é a questão energética. Vivemos hoje a maior crise hídrica desde o apagão de 2001. Estamos muito próximos de um apagão. Torço para que tenhamos um verão atipicamente quente, como o do ano passado, para que ver o que irá acontecer. As térmicas estão todas trabalhando atualmente, ao máximo, e não há folga para um pico energético. A arrogância do operador do sistema irá se mostrar fatal se o clima não for generoso, ainda mais porque a população está completamente despreparada. E isso não foi tema do debate.
            O Brasil vive uma crise também no meio internacional. O Itamaraty virou um centro acadêmico depois de 12 anos de governo PT. Atualmente, o Brasil virou piada internacional, alinhando-se com o que há de pior no mundo. Além disso, nossas escolhas de parceiros comerciais nos tem condenado a um mero fornecedor de commodities, já que estamos perdendo rapidamente mercado de nossos produtos industrializados nos nossos mercados tradicionais. Nossos maiores investimentos em comércio exterior (Argentina, Venezuela e Irã), estão indo de mal a pior. Isso deve ser revertido se nosso indústria quiser voltar a ser competitiva. Caso contrário, a única alternativa será mais protecionismo, o que será muito prejudicial para todos nós, consumidores.
            A questão da educação também é um desafio sem tamanho. Afinal, nem só de Pronatec vive um país. E o PT tem uma enorme dificuldade em reconhecer que a qualidade da educação fundamental e média no Brasil, além de baixíssima, não deu qualquer sinal de melhora nos últimos 12 anos. Duvido que o PT consiga enfrenta-la, mesmo porque, pelo que vimos na campanha, Dilma aposta todas as fichas no pré-sal, cuja exploração é inviável com o petróleo abaixo de US$ 70,00 o barril (atualmente está em US$ 85,00 com viés de queda desde abril de 2013). Sem contar que o que faltam não são recursos, mas ações para mudar a gestão.
            Em termos de saúde, o Brasil vive uma longa decadência. Desde o começo da década passada o número de leitos hospitalares vem caindo. E esta tendência não dá sinais de mudança. Algo urgente precisa ser feito. O governo federal concentra recursos, mas as ações são erráticas. Dá-se pouca atenção a resolução de problemas sistêmicos, como o caso do atendimento emergencial, que em grande parte serve para atender casos que nada têm de emergenciais. Desperdício de recursos, obviamente, que levam a um atendimento precário dos casos realmente graves. Além disso, o déficit de médicos e de especialidades, cujo maior problema é um forte cerceamento a abertura de novas vagas causado pelo poder extremo dado às entidades de classe. Novamente, o problema é gestão, mas o governo não demonstra sinais de saber o que fazer.
            Da série ainda urgente, podemos citar ainda uma tendência que parece se inverter no mercado internacional: a de alta incessante no preço das commodities agrominerais. Durante o reinado lulo-petista que se iniciou em 2003, o preço dos commodities disparou de uma forma “nunca antes vista”, rompendo uma tendência de queda de mais de 130 anos. Ocorre que, desde o ano passado, este mercado mostra sinais de desaquecimento. O mundo respondeu positivamente aos preços ascendentes e novas áreas começaram a produzir mais. A União Europeia espera safra 6% mais em 2015; nos EUA, produção recorde se aproxima. Além disso, grandes áreas da África tropical foram arrendadas por companhias chinesas e estão começando a produzir. Isto significa mais produto no mercado. A redução do afluxo de navios nos portos brasileiros foi o primeiro sinal desta redução relativa da importância nacional, que pode ser passageira, mas pode ser um processo em curso.
            Diante disso tudo, talvez seja até uma questão de sorte Aécio não ter sido eleito. Eu vejo um futuro tenebroso para o Brasil nestes próximos 4 anos. Acho que eles serão difíceis, ainda mais com a incompetência petista no governo, incrustada na máquina federal. As vezes, a derrota é melhor que a vitória.

PS: Estive lendo o texto de 2010 e vi que na primeira eleição de Dilma eu também achei que seria uma boa coisa o Serra não ter sido eleito. Boa coisa para o PSDB, obviamente. Algumas das coisas que eu achei que aconteceriam, aconteceram de fato. Outras não. A CPMF não voltou, por exemplo, já que a bagunça fiscal foi contornada com contabilidade criativa. A inflação, no entanto, persistiu. O Caos se implantou em vários segmentos, e a rapinagem tornou-se institucionalizada. Como previsto, o Brasil não virou exportador de petróleo. Deixo o link do texto para leitura abaixo.



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