RESENHA – COLAPSO - JARED DIAMOND, 4ª edição, Ed. Record, 2006.

Outro dia, fiz aqui no blog alguns comentários a um texto de Jared Diamond publicado no final dos anos 1980, no qual fiz diversas críticas ao modo como ele tratou a questão da "escolha" que nossos antepassados fizeram pela agricultura. Na ocasião comentei que aquelas idéias apresentadas pelo autor diferiam bastante daquilo que é apresentado em Colapso, seu último livro, até onde sei, e um dos de maior repercussão no Brasil, junto com Armas, Germes e Aço.

Acho que Diamond é o tipo do autor que permite visualizar em seus escritos uma clara mudança, para melhor, ao longo da carreira. Obviamente, isto não isenta o livro de problemas. Na página 435, por exemplo, ele afirma que "poluentes como os óxidos de nitrogênio e dióxido de carbono estão aumentando", quando o dióxido de carbono, conhecido por sua sigla mais famosa (CO2), não é um poluente, apesar de ser um gás estufa.

Ele também faz uma distinção entre crescimento e crescimento exponencial, como se uma coisa fosse diferente da outra. Toda taxa de crescimento é definida, ou melhor, pode ser expressa na forma de uma expoente. Todo crescimento é exponencial. Ele usa esta idéia de diferenças qualitativas sobre o crescimento quando avalia o aumento da população em relação ao aumento da produção de alimentos, e aponta, por exemplo, que a produção de alimentos chegará a um limite máximo, definido pela capacidade fotossintética do planeta.

Esta opinião é parcialmente verdadeira: no Brasil a população cresceu ao longo do século 20 a uma taxa menor que 4% ao ano, enquanto o PIB cresceu mais de 6% ao ano em média, e a produção agrícola cresceu mais de 10% ao ano em média. Ou seja, o "crescimento exponencial" da agricultura foi muito superior ao crescimento exponencial da população. Nós passamos de país importador de alimentos para um grande exportador mundial, o maior no caso da soja, carne bovina e laranja. E ainda não usamos nem 40% das terras agricultáveis e mesmo nas áreas mais produtivas ainda resta espaço para ganhos de produtividade.

Também não compartilho de sua opinião, expressa no subtítulo do livro, "como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso", porque para mim não há escolhas sociais, mas apenas escolhas individuais, que quando mudam o rumo da sociedade é porque são feitas por indivíduos dotados de poder, como líderes políticos, sejam carismáticos, sejam religiosos ou autocráticos mesmo. O livro encontra-se dividido em quatro partes: Montana Contemporânea, onde faz uma descrição dos problemas e potenciais do estado americano de Montana; Sociedades do Passado, onde em seis capítulos 9 sociedades antigas; Sociedade Modernas e por fim Lições Práticas.

O autor faz um grande esforço para descaracterizar uma avaliação das sociedades humanas baseada no determinismo geográfico. Por isso o subtítulo, como as sociedades escolhem. Sem entrar no mérito se a apresentação que o autor faz ou não da Ilha de Páscoa é verdadeira, porque há pessoas que discordam da idéia de que os nativos da ilha tenham cortado todas as árvores quando se sua descoberta, a conclusão a que se chega é que os habitantes da ilha estavam de certa forma, fadados ao fracasso.

Quando é apontado, por exemplo, o cruzamento de variáveis que influenciam o meio-ambiente das ilhas do pacífico, a Ilha de Páscoa se mostra como um dos ambientes menos propícios a manutenção de uma grande população. Seus solos são pobres, seu clima é relativamente frio e pouco chuvoso, seu ecossistema isolado, e ainda não conta a com a precipitação de poeira da Ásia, como as ilhas mais ao norte. Além disso, sua latitude aponta um crescimento mais lento das árvores. Com tudo isso, o autor ainda aponta o fato de que talvez os líderes de Páscoa tenham escolhido a guerra intertribal e a construção de monumentos voluntariamente, o que teria apressado o colapso de sua sociedade. Este capítulo, assim como o que trata dos Maias e Anasazis tem um tom claramente "determinista", por valorizar demais os aspectos ambientais, mesmo porque há uma grande escassez documental sobre outras questões que influenciaram seu "colapso".

Os capítulos 6 a 8, que tratam dos Vikings da Groelândia, são, em minha opinião, os melhores do livro.  É uma etapa em que o autor faz uma avaliação que combina questões climáticas, como o resfriamento da Groelândia quando do início da idade do gelo e questões culturais, como as preferência alimentares, de vestimenta e tecnológicas. Sua avaliação da República Dominicana em contraste com o Haiti me pareceu demasiado simplificada. Mesmo porque dá a entender que um governo autoritário como o da Rep. Dominicana dos anos Trujillo é uma opção melhor que a democracia que veio depois, nos anos 1990. Outro caso que poderia ter sido avaliado, mas não foi, é o da Costa Rica, que fez grandes progressos na proteção do meio ambiente sem qualquer ruptura democrática.

Quando avalia Ruanda, o autor dá demasiada importância às questões demográficas, mas não menciona um fator que é crucial para entender o caos que existe na África: a ausência de instituições combinada com a presença de fuzis. As questões demográficas são importantes, assim como a estrutura de posse da terra, que é baseada toda ela em minifúndios, como chamamos no Brasil. Mas a agricultura não aumenta sua produtividade e usa de técnicas arcaicas na África não por causa do excesso de gente, ou porque exista uma "falha de mercado", mas simplesmente porque não há segurança jurídica que permita que um agricultor mais eficiente expanda sua produção sem sofrer retaliações. Este é o mesmo fator que "explica" a desgraça que é o Haiti, que já foi a mais rica colônia americana.

Quando trata da China, no capítulo 12, Diamond faz previsões catastróficas sobre o futuro da produção de alimentos. Não leva em conta que sua demanda por alimentos será, cada vez mais, suprida por importações, sobretudo de países como o Brasil, que conta com um dos setores agropecuários mais eficientes do mundo, com baixo impacto ambiental. Um pessimismo bem evidente existe quando trata da Austrália. Sua agricultura é cada vez menos competitiva, mas por outro lado, sua indústria é muito produtiva. O autor também faz uma avaliação do "terceiro mundista" quando critica a exportação de madeira da Austrália para o Japão, dizendo que a Austrália exporta a madeira em estado bruto, sem agregar valor, para um país que possui uma das maiores áreas florestadas do mundo.

 Ele dá a entender uma espécie de premeditação da parte dos japoneses nesta prática. É clara a preocupação do autor com uma idéia de "segurança alimentar", que simplesmente não cola com economias globais interdependentes. Além disso, creio que ele superestima as dificuldades técnicas, por exemplo, na solução de problemas de salinização. O problema da salinização não é técnico ou tecnológico: é um problema econômico. Como os preços dos alimentos são muito baixos, não vale a pena investir na recuperação de solos, e é por isso que problemas como a salinização se agravam.

Do mesmo modo, questões como a erosão: aqui no Paraná, por exemplo, quando os agricultores viram que não seria tão lucrativo continuar com o modelo de exploração da terra e depois migrar para o Mato Grosso, mas que sua renda poderia crescer adotando práticas mais inteligentes, o plantio direto de soja e milho se disseminou rapidamente. Em uma década os problemas de erosão enfrentados na região oeste e noroeste do estado praticamente sumiram. As matas ciliares, foram recuperadas, com faixas de 30 a 100 metros, e os rios voltaram da dar peixes em grandes quantidades. Mas isso só funcionou no Paraná por conta de uma associação entre visão de longo prazo dos agricultores, regulamentação do governo e aperfeiçoamento de instituições. O mesmo pode, certamente, acontecer na Austrália.

Achei curiosa também a grande oscilação de pontos de vista entre os capítulos. Porque se no capítulo 13, quando fala da Austrália ele dá uma importância extrema em relação aos aspectos negativos da agricultura e mineração lá, no capítulo 15, quando fala das grandes empresas, Diamond oferece uma visão extremamente ponderada e, em minha opinião, correta do comportamento destas empresas frente ao meio ambiente. Este capítulo, em especial, é certamente um dos melhores do livro. Infelizmente ele é antecedido por um capítulo extremamente ruim, que lembra aquele texto dos anos 1980, quando fala das decisões desastrosas tomadas por sociedades.

E finaliza o livro de igualmente oscilante, em seu último capítulo, onde compara o mundo a um Polder. Sua visão sobre Los Angeles, por exemplo, poderia dar mais destaque para as questões culturais (sobretudo a expansão de subúrbios), ao invés de simplesmente descrever o que aconteceu. Quando combate os chavões simplistas, Diamond faz uma crítica que, apesar de correta sobre as oposições mal estruturadas, mostra uma falta de vontade em combater as opiniões bem estruturadas e ponderadas contra as políticas restritivas propostas por ambientalistas. Com esta atitude, Diamond, sobretudo, foge de possíveis polêmicas, que poderiam colocar em evidência a tibieza de alguns de seus argumentos.

Isto, evitar polêmicas, não invalidade a proposta do livro, que é voltado para leitores do "primeiro mundo" (uma classificação arcaica que poderia ser jogada na lata de lixo da história), com o objetivo de "sensibilizar" as pessoas para as questões ambientais. O livro, contudo, deve ser livro com cautela, porque apesar dos pontos fortes, algumas partes podem levar a uma visão equivocada sobre questões importantes. Já discuti com gente que cita indiretamente o Diamond para dizer coisas como "o crescimento populacional é exponencial, mas o de alimentos não". Ele, afinal de contas, sensibilizando leitores torna-se um "formador de opinião", e sendo assim, co-responsável por parte das bobagens que espalha, que inclusive podem ir contra a causa maior, ou seja, a sustentabilidade da ocupação humana no planeta. Não é um livro acadêmico, e é fraco em fontes ao longo do texto. Serve como introdução e não como referência sobre os assuntos que trata, mas cumpre bem seu papel de "divulgação científica". De todos os livros que eu já resenhei, este é o que me provocou mais sentimentos contraditórios sobre o autor. Mas pelos capítulos bons, como os capítulos 6, 7, 8 e 15, eu acho que ele vale a pena ser lido.

 

Fernando R.



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Comentários

Anônimo disse…
Fernando, estou perplexa com sua abordagem. Não terminei de ler o livro Colapso gostei da abrangência do assunto, acredito que, ele no mínimo, nos faz refletir sobre o colapso das culturas. Mas, sua nálise é bem interessante, acho que terei que reler, e talvez procurar informações mais aprofundadas sobre as regiões em questão.

Você tem alguma indicação sobre textos ou artigos sobre sustentabilidade e produção de resíduos?

Abraço,
Elba Arêdes
meu blog: lixosustentavel.blogspot.com
Anônimo disse…
Cara, você viajou nessas críticas. Há sim muita diferença entre crescimento e crescimento exponencial. E daí que CO2 não é "poluente" (estranho, agora você quer usar as palavras literalmente?), é muito mais "vilão" que os demais.
"Como as sociedades escolhem..." Aff, parei de ler por aí, escolha da sociedade = escolha de quem está no poder, sua escolha individual q muda o mundo?

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