COMO MELHORAR A PRODUTIVIDADE NAS CIDADES


Por Fernando R. F. de Lima.
            Por razões óbvias, quando se trata da economia de um país a tendência principal é focar-se nas ações do governo central. Quando fala-se em elevar a produtividade da economia brasileira as responsabilidades parecem recair todas nas mãos da presidente e sua equipe, além do Congresso Nacional. Porém, esta visão excessivamente focada na macroeconomia, que leva aos maiores erros que os sucessivos governos do PT têm cometido, mostra o quanto o desprezo pela microeconomia deixa brechas para a melhoria da produtividade nas pequenas rotinas urbanas.
            Antes de entrar de neste tópico, é necessário dar uma definição para o que é produtividade. Podemos defini-la, grosso modo, como um indicador que permite avaliar o quanto de recursos (mão-de-obra, trabalho e capital) são necessários para produzir uma dada quantidade de produtos e/ou serviços. Um aumento de produtividade implica produzir a mesma quantidade de produtos e/ou serviços utilizando uma quantidade menor de recursos. Um aumento na produção simplesmente, pode manter, ou até mesmo reduzir, a produtividade desta atividade. Se um aumento na produção gera aumento de produtividade, chamamos economias de escala. Se o aumento na produção gera redução na produtividade, chamamos deseconomias de escala ou perdas de escala.
            Com esta definição é possível seguir adiante fazendo algumas avaliações do que ocorre nas cidades brasileiras. A primeira questão, que me parece óbvia, relaciona-se ao lixo. A coleta de lixo é feita em grande parte de modo primitivo, quase artesanal. Um caminhão com três ou quatro trabalhadores passa de rua em rua coletando sacolas avulsas de lixo. Outra parte, o lixo reciclável, é coletado em sua maioria por trabalhadores autônomos, com carroças puxadas a tração humana, os famosos catadores de papel. Um rápido olhar permite ver o quão degradante é a coleta de lixo nas cidades brasileiras, além dos riscos envolvidos para os trabalhadores destas áreas. São milhões de pessoas no Brasil todo, em todas as cidades, envolvidos neste tipo de trabalho que, por sua própria característica, é de baixíssima produtividade.
            Mas como é esta coleta em lugares mais produtivos do mundo? Será que na Holanda, na Alemanha ou no Japão a coleta é realizada da mesma forma? A resposta óbvia é: não. Nestes países, uma parte considerável por meio de tubulações de sução do lixo. Outra porção é realizada por caminhões que recolhem o lixo acondicionado em embalagens padronizadas, deixadas em frente as residências. Um funcionário apenas coleta o lixo que aqui no Brasil demanda no mínimo quatro pessoas.
            A separação de recicláveis também é realizada diretamente nas casas das pessoas e a figura do catador simplesmente não existe. Mudanças no sistema de coleta das grandes cidades brasileiras certamente aumentaria muito a produtividade neste setor muitas vezes esquecidos mas, principalmente, liberaria mão de obra para um melhor emprego em outros setores da economia.

Ganhos igualmente relevantes podem ocorrer em serviços públicos como a varrição das ruas. Na Holanda pude testemunhar grandes aspiradores de pó que varriam grandes áreas em pouquíssimo tempo. Financiar a aquisição deste tipo de máquina poderia liberais algumas centenas de garis para atividades mais produtivas em cidades como Curitiba, além de garantir um aumento na taxa de investimento.
Outra questão que venho repetindo é o emprego de cobradores de ônibus, que poderiam ser substituídos com sucesso pela cobrança unicamente por meio de bilhetagem eletrônica. Para não pensarem que eu sou um job killer, imagino que todos estes profissionais dispensados destas atividades poderiam ser muito melhor empregados em outras atividades. 
 Os “lixeiros” poderiam ser requalificados como motoristas e técnicos responsáveis pela fabricação e manutenção dos recipientes de lixo. Os catadores de papel poderiam atuar nos centros de reciclagem, realizando a separação e comercialização do lixo recolhido. Cobradores de ônibus poderiam atuar como motoristas de ônibus, fiscais e reparadores das máquinas que substituíram sua perigosa e degradante função.
Todos os empregos alternativos a estes são empregos que requerem uma mão-de-obra melhor treinada e ao mesmo tempo pagam melhores salários. Estes melhores salários são possíveis porque a produtividade geral da economia cresce, uma vez que pode-se fazer mais utilizando-se menos recursos (sobretudo tempo e energia). Este tipo de ação depende primordialmente do poder público e poderia ser empreendida pela articulação de governos federais, estaduais e municipais com efeitos reais sobre a produtividade da economia e, principalmente, na melhoria da qualidade de vida da população.

Comentários

Luis Diniz disse…
Ótimo texto, Fernando. A propósito, é incrível como os livros didáticos de geografia ignoram completamente o papel central que o crescimento da produtividade do trabalho desempenha na melhora da qualidade de vida. Nesses livros, as diferenças entre países ricos e pobres se devem à exploração dos países subdesenvolvidos e à ação estatal, que no Primeiro Mundo seria mais distributiva e imporia maior controle sobre as remessas de lucros das multinacionais... Aliás, quando os livros didáticos falam em produtividade do trabalho, é só para dizer que a modernização tecnológica produz "desemprego estrutural"! Lamentável.

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