ALGUMAS RAZÕES PARA O DESENVOLVIMENTO DOS SUBÚRBIOS NOS EUA

Por Fernando R.

 

Quando falo sobre as razões para o crescimento dos subúrbios nas grandes cidades, sempre aponto para aspectos que não estão diretamente relacionados com este tipo de moradia e habitação em si, mas com escolhas do estado que mostram o poder do intervencionismo no desenvolvimento urbano. A primeira das formas de subsídios aos subúrbios é a construção de grandes sistemas de transporte rodoviário, que nos EUA ficou manifestado nas "freeways" e inter-estaduais, cuja construção tomou forço depois da segunda guerra mundial, no governo de Dwight D. Einsenhower.

As rodovias inter-estaduais não foram pensadas para facilitar a expansão suburbana das cidades; seu objetivo era favorecer a logística interna dos EUA, facilitando a condução de cargas e tropas dos mais diferentes pontos do território nacional de forma rápida, eficiente e barata. Elas foram inspiradas no sistema alemão de rodovias, pensadas como parte do programa nacional de defesa. Contudo, eram interessantes também como forma de facilitar a concorrência do transporte rodoviário de cargas em relação ao transporte ferroviário, além de serem interessantes para as grandes indústrias automobilísticas.

O programa nacional de highways (como são conhecidas as inter-estaduais) funcionou também como um suporte para o programa de expansão de subúrbios. Estas rodovias, juntamente com os bancos, propiciaram o crescimento contínuo dos subúrbios, vinculados a "ideologia" do "American Drean", ou "American way of life". Jane Jacobs destaca que:

"O enorme crescimento dos subúrbios das cidades norte-americanas não ocorreu por acaso – e menos ainda pelo mito da livre escolha entre cidades e subúrbios. O eterno crescimento dos subúrbios foi viabilizado (e para muitas famílias foi na verdade compulsório) pela criação de uma coisa que os EUA não tinham até meados dos anos 30: um mercado hipotecário nacional, arquitetado especificamente para promover a construção de residências nos subúrbios. Em razão da garantia propiciada pelo aval do governo às hipotecas, um banco de New Haven [ no Estado de Connecticut, nordeste dos EUA] poderia comprar e compra hipotecas do programa habitacional de subúrbios no sul da Califórnia. Um banco de Chicago compra hipotecas de programas habitacionais de subúrbios em Indianápolis numa semana e, na semana seguinte, um banco de Indianápolis compra hipotecas de programas habitacionais na periferia de Atlanta ou Buffalo. E, hoje em dia, essas hipotecas nem precisam ser avalizadas pelo governo. Podem ser a reprodução, sem aval, do tipo de planejamento e construção que virou rotina e é aceito pelos avalistas." (JACOBS[i], 2001, p.343-344).

 

Estes sistema hipotecário nacional foi pensando como uma forma de estímulo ao crescimento econômico durante os anos da grande depressão, e estava embasado, ainda segundo Jacobs, num discurso de Herbert Hoover sobre a "inferioridade moral das cidades e um elogio das virtudes morais das casa de campo simples, das cidades pequenas e das áreas verdes". (p.346). Esta política tinha entre seus objetivo a criação de subúrbios seguida pela destruição de cortiços e sua conversão em parques. Esteve apoiada por leis de desapropriação que retiravam a prerrogativa exclusiva destes atos do governo e transferia a iniciativa privada, sob a alegação de reforma urbana.

Daí se vê que a escolha pelos subúrbios e pelos projetos de grande monta do urbanismo modernista, da Ville Radieuse de Le Corbusier são parte de uma ideologia de transformação urbana fortemente intervencionista, que só foi possível de se criar a partir de uma estrutura de desenvolvimento que passava ao largo do livre mercado, mas encontrava-se voltada para o ideal de recuperação econômica a todo custo, inclusive a partir de obras "faraônicas" ligadas a projetos de defesa nacional.

Ao contrário dos que dizem os críticos do capitalismo, a expansão suburbana, o "urban sprawl", antes de ser um desenvolvimento do livre mercado e da livre concorrência, é fruto do subsídio deliberado, manifesto na forma de crédito barato e abundante, avalisado pelo governo, com um programa complementar de transporte rodoviário, implantando para dar o suporte físico necessário aos subúrbios. Também mostra que o desenvolvimento suburbano foi pensando como forma de atender as expectativas de crescimento de alguns oligopólios, como o da cadeia de fabricação de veículos automotores (caminhões e carros), bancos e grande empresas de construção civil.

De certa forma, indireta, podemos atribuir aos subúrbios algumas das causas da queda constante dos ganhos de produtividade da economia americana, já que a dispersão urbana levou a um grande consumo de petróleo, matéria prima e crédito que poderia ter sido melhor aplicado ao desenvolvimento do país. Por fim, pode-se ainda atribuir a esta estrutura keynesiana, intervencionista criada nos anos da grande depressão e impulsionada no pós-guerra, o início dos grandes déficits orçamentários americanos, com uma pressão crescente sobre o gastos governamentais com subsídios indiretos para a construção civil e os setores de transporte.



[i] Jacobs, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. Martins Fontes, São Paulo, 2000. NOTA:A primeira edição deste livro em inglês é de 1961. No Brasil foi traduzido apenas em 2000.



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