A IMPORTÂNCIA DA TAXA DE JUROS BÁSICA E O CUSTO DE OPORTUNIDADE





Hoje em dia é consenso entre os economistas de que as coisas não possuem um valor intrínseco, dado, por exemplo, pela quantidade de trabalho ou de tempo destinado a produzi-lo. Durante muitos anos, mesmo no Brasil, as pessoas se guiavam ainda pela ultrapassada teoria do valor trabalho, que foi inicialmente desenvolvida por Adam Smith, e, sobretudo por David Ricardo e incorporada pelas teorias socialistas, principalmente a de Karl Marx. A teoria do valor-trabalho dizia que o valor de algo era o tempo (em horas de trabalho) gasto para produzi-la. Esta teoria obviamente, tinha muitas falhas, como por exemplo, a dificuldade em compreender porque algumas coisas não tinham o mesmo valor que outras apesar do mesmo tempo gasto para produzi-las.

Também entrava em desacordo com algumas idéias que iam surgindo como a que toda oferta gera sua própria demanda (lei de Say, proposta por Jean Baptiste Say). A idéia de "valor trabalho" foi substituída pela teoria da "utilidade marginal", ou seja, que as coisas adquiriam valor para as pessoas em função das escolhas que elas tinham que fazer. Em condições normais, um diamante, por exemplo, valeria mais do que a água, porque o esforço em obter água é menor que para obter um diamante. Mas numa situação extrema, como o exemplo de um viajante perdido no deserto, a água adquiria um valor maior que o diamante. A teoria das utilidades ainda hoje enfrenta o obstáculo de se basear em questões ordinais, ou seja, por ordem de importância, portanto subjetivas, e não em formulações quantificáveis, que seriam objetivas para todos.

Numa firma, porém, é possível quantificar algumas das escolhas feitas, com base na idéia de custo, através das equações de utilidade. O custo é passível de cálculo objetivo, portanto quantitativo e não apenas qualitativo, quando se sabe o preço de um produto que se espera vender e de suas matérias primas, assim como preço do capital investido e do trabalho necessário para realizá-lo. Deste modo, é possível optar entre duas matérias primas diferentes, ou dois métodos de produção diferentes, com base no preço do bem final e nos preços dos bens iniciais. Esta é uma análise de custos relativamente simples, que é feita todos os dias dentro das empresas privadas e mesmo nos governos, assim como em economia doméstica.

Quando avaliamos diferentes atividades, como investir no dinheiro numa fábrica de botões ou numa mercearia, ou ainda em títulos do governo ou ações na bolsa de valores, para realizar esta avaliação são utilizados outros instrumentos. O principal deles é o custo de oportunidade.

O custo de oportunidade pode definir o fracasso ou sucesso de um projeto, mesmo que ele seja economicamente viável ou seja, a diferença entre o preço dos fatores de produção e dos bens vendidos seja positiva. O custo de oportunidade, basicamente, resume os usos alternativos que poderíamos dar para o capital (no caso dinheiro, ou mão-de-obra) que desejamos empregar produtivamente. Para a definição do custo de oportunidade, portanto, a taxa de juros básica, ou seja, aquela que o governo paga pelo dinheiro aplicado em seus títulos, é de fundamental importância.

De um modo geral, todos os usos do dinheiro têm algum risco mínimo de dar errado. Ao montar uma empresa, por exemplo, há vários fatores nem sempre quantificáveis que compõem a variável risco. Enchentes, roubos, mudanças na regulamentação sobre o setor, problemas com funcionários, custos trabalhistas, etc. são alguns dos riscos a que os empresários estão sujeitos. No caso de uma aplicação em bolsa de valores, também há inúmeros riscos, como um balanço negativo num semestre influenciado por variáveis não controladas, como mudanças no preço das matérias primas, ou queda na demanda pelos produtos da empresa, etc.

Por isso, de um modo geral, as aplicações mais seguras para o dinheiro são a poupança e os títulos do governo. Para uma taxa de juros dos títulos do governo em 10% ao ano, como é a situação atual, qualquer aplicação alternativa que renda abaixo deste percentual será menos lucrativa que aplicar nos títulos governamentais. Na poupança, o retorno situa-se em torno de 7% ao ano, o que significa que qualquer investimento que renda menos que isso é um mau investimento, porque, de todas as aplicações financeiras, a de menor rendimento é a poupança[1]. Obviamente, dentro desta situação, temos que considerar a depreciação do dinheiro. Uma inflação de 5% ao ano, por exemplo, significaria um rendimento anual da poupança de apenas 2%, e dos juros do governo de apenas 5% (o que pode ser chamado de taxa real).

Um exemplo simples é a idéia do salário dos trabalhadores. Uma pessoa que ganha R$ 3 mil reais por mês, por exemplo, para obter um rendimento semelhante ao seu salário por meio de investimentos teria que acumular um capital de R$ 1,8 milhões, caso aplicasse apenas na poupança, e de R$ 600 mil caso aplicasse em títulos do governo. Fica fácil perceber que com este capital a pessoa poderia obter rendimentos maiores em outros investimentos, apesar de ter que conviver com um risco maior. Uma padaria, por exemplo, com um investimento de R$ 150 mil pode garantir um rendimento líquido de R$ 5 mil por mês, mas isto irá depender de vários outros fatores. Conseguindo isto, o rendimento seria de 36% ao ano, ou ,descontada a inflação, 31% ao ano, portanto bastante superior ao rendimento da poupança e da Selic.

Milhões de pessoas no Brasil e no mundo sabem intuitivamente que montar uma empresa é um negócio lucrativo, porém sabem também que é arriscado. Um investidor que analisasse a situação friamente, como um banco, por exemplo, poderia ser "parceiro" na instalação de um negócio como este. Ele iria emprestar o dinheiro para a pessoa, de modo a dividir com ela o risco do negócio, e procuraria ganhar com a cobrança de juros. Mas quanto mais elevada a taxa selic, mais difícil seria tornar a padaria rentável, sob ótica dos custos de oportunidade. Para o negócio ser viável, o juro máximo cobrado pelo banco teria que ser inferior a 25% ao ano, para que o negócio conseguisse uma rentabilidade mínima de 6% ao ano, superior portanto, a rentabilidade da selic.

Quanto menor forem as taxas de juro, mais fácil se torna viabilizar um negócio como uma padaria. Só que a rentabilidade oferecida pela padaria também deve ser superior ao que o investidor conseguiria trabalhando com alguma outra profissão. Portanto, não apenas o uso alternativo do dinheiro aplicado, tanto pelo banco como pelo padeiro deveriam ser considerados, mas também o uso alternativo da mão-de-obra do investidor. Um trabalhador que ganhasse R$ 3mil por mês e tivesse R$ 150 mil reais em títulos do governo conseguiria um rendimento anual de R$ 36 mil com seu trabalho e mais R$ 7,5 mil, R$ 43,5 mil, portanto. Se a padaria rendesse R$ 60 mil reais por ano, talvez este fosse um bom investimento para ele.

Por outro lado, talvez ele obtivesse mais se investisse em outras coisas, como por exemplo, em sua qualificação profissional, que poderia lhe render um salário maior. E também poderia diversificar seus investimentos, optando, por exemplo, por aplicar uma parte de seu capital em outras aplicações, como a Bolsa de Valores, por exemplo. Por mais que a rentabilidade da padaria fosse positiva com uma taxa de retorno de apenas 31% ao ano, ainda assim ela seria um mau negócio, e daria prejuízo quando contabilizados os usos alternativos do capital ali empregado e da mão-de-obra do investidor.

 

MEDIDAS PARA REDUZIR A TAXA BÁSICA DE JUROS

 

 Para propor alguma medida para a redução da taxa básica de juros há de se compreender para que esta taxa é utilizada. Conforme já foi explicado no outro texto, a taxa de juros é, atualmente, o principal mecanismo para o controle da moeda. De um modo geral, quando há uma ameaça de inflação, por exemplo, o governo aumenta os juros pagos por seus títulos como forma de incentivar as pessoas a aplicarem sua poupança privada em títulos resgatáveis no futuro, e com isso diminuir o dinheiro circulante na economia.

Quando a ameaça é de deflação, o governo baixa a taxa de juros dos títulos, como forma de estimular as pessoas (mas principalmente os bancos) a vendê-las (normalmente é próprio governo quem recompra) como forma de aumentar a quantidade de dinheiro em circulação. Este aumento do dinheiro em circulação ocorre sobretudo na forma de mais empréstimos para as pessoas. Obviamente, isto tem um impacto nos custos de oportunidade de todos os empreendimentos. Quando a taxa sobe, muitas coisas pouco rentáveis podem se converter em prejuízo, o que também leva a uma redução do consumo e tem, portanto, um efeito positivo no controle da inflação. A queda na taxa atua no sentido inverso. Por isso o juro é usado como o principal mecanismo de controle dos índices de preço.

Mas este controle da taxa de juros funciona relativamente bem porque o consumo do governo compõe uma parcela importante da economia, e seus títulos são uma das principais aplicações da poupança dos trabalhadores e seus fundos de pensão, por ser uma aplicação relativamente segura para fins de aposentadoria. O dinheiro que entra com a venda dos títulos, grande parte das vezes acaba sendo utilizado para cobrir as despesas correntes de governos que gastam mais dinheiro do que arrecadam, o que é a situação atual em praticamente todas as economias ocidentais. Quanto maior a dívida de um governo maior é sua necessidade de financiamento, e isto faz com que reste menos dinheiro no mercado para usos alternativos por parte dos bancos e das pessoas.

Como nosso governo recorre muito a este tipo de financiamento, a melhor alternativa para reduzir a taxa de juros no país seria a redução do déficit do governo na balança de pagamentos. Com isto, os títulos poderiam ser usados apenas para controle monetário, e menos com alternativa de investimento. Além disso, o governo, ao tomar menos empréstimos no mercado, deixaria mais dinheiro ocioso nos bancos que teriam que buscar outros usos mais rentáveis para seu capital. Por sua vez, mais negócios seriam viabilizados, porque o rendimento líquido obtido nestes projetos seria maior que aquele ganho por meio dos salários.

A contrapartida deste círculo virtuoso seria um aumento do consumo. Contudo, este aumento não iria se apresentar imediatamente como inflação, por causa da redução do consumo do governo. Aqui entra um outro ponto importante sobre as ideologias de estímulo ao consumo: os economistas keynesianos ou de esquerda como dizem muitos, preocupam-se em estimular a atividade econômica e tentar aumentar a renda interna e atingir o pleno emprego por meio do aumento do consumo do governo; há outro grupo que imagina que este estímulo da atividade econômica pode ocorrer por meio do aumento do consumo privado, o que seria obtido com a redução dos impostos. Ambas as medidas, contudo, não atacam o cerne do problema, que é o impacto dos juros sobre o custo de oportunidade dos investimentos.



[1] O rendimento da poupança é inferior ao de todas as outras aplicações, mas ela pode ter um rendimento líquido melhor, pelo fato de não incidir sobre esta aplicação tributos. As alterações recentes na legislação têm como objetivo tornar a poupança menos atrativa para grandes poupadores, tributando aplicações superiores a R$ 50 mil.



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Comentários

Unknown disse…
Achei arretado esse seu artigo. Lúcido, objetivo e descomplicado.
Parabéns.

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