O PROCESSO DE CRÍTICA


O processo de crítica, seja na ciência ou na vida pessoal, é um processo necessário para aprender mais sobre o que fazemos. Eu cresci ouvindo a palavra crítica como sendo uma coisa negativa, algo destrutivo, depreciativo, que levava as pessoas a se sentirem pior. Tanto que para destacar diferenças entre a crítica destrutiva e a crítica necessária, as pessoas costumavam dizer que havia a crítica destrutiva e a crítica construtiva.
Mais tarde, entrei na faculdade de geografia, e para os não geógrafos, basta dizer que a corrente de pensamento mais influente é conhecida como geografia crítica. Não que a geografia crítica fizesse críticas construtivas à sociedade: seu objetivo, ao contrário, era desmascarar, desmistificar, demolir e de preferência substituir a sociedade “capitalista burguesa”.
Logo cedo, eu me opus a esta visão simplificada do que deve ser a ciência, e no feriado de Corpus Christi eu acabei pensando em algumas definições que agora trago ao público neste texto. Afinal de contas, como deve ser entendido o processo de crítica? Minha analogia será com a atividade que eu estava desempenhando neste feriado: uma limpeza de armários e mudança de móveis de lugar dentro de casa, na companhia de minha esposa e filha.
O que fizemos foi parar por um dia para olhar para as coisas que tínhamos dentro de casa, e pensar na sua necessidade, na sua disposição no espaço e em sua utilidade futura. Depois disto, rearranjamos a ordem das coisas, mudando algumas de lugar e deixando outras como estava, separamos papéis sem utilidade, que tiveram como destino o lixo, e por fim reorganizamos o espaço guardando as coisas que são necessárias tanto agora como as que podem ser úteis no futuro.
Compreende este processo como uma analogia mais ou menos perfeita ao processo de crítica, seja na ciência, seja no trabalho, na política ou ainda a autocrítica. A crítica deixa, portanto, de ser algo bom ou algo ruim: passa a ser algo necessário, principalmente necessariamente periódico. Quando nos deparamos com um problema científico, a primeira coisa que tentamos fazer para resolvê-lo é vascular aquilo que a ciência já produziu sobre o assunto. Buscamos, em termos mais técnicos, o estado da arte. Imagino que fazer isto é mais ou menos como para pensar nas coisas que estão dentro de casa.
Em seguida, observamos a disposição destas respostas e passamos a separar aquilo que será útil na discussão sobre o assunto e aquilo que não é mais útil, ou que está superado, ultrapassado e é simplesmente desnecessário. Por fim, re-arrumamos a bagunça, colocando as coisas numa nova ordem ou disposição que seja útil para obter a resposta daquele problema.
A sociedade, como qualquer criação humana também depende de uma reavaliação periódica, e um reordenamento. É o processo de crítica. Não podemos, contudo, viver somente neste processo. Precisamos ir adiante. A crítica é uma etapa necessária, mas não é a única. Não basta separar as coisas sem utilidade: é preciso ter um objetivo, uma meta a atingir para poder separar o que é útil, e desta forma avançar.
Avançar significa deixar de lado a crítica por alguns instantes e partir para a proposição de novas idéias, de novas arrumações, de outras saídas para os problemas conhecidos. Se fizermos a crítica pela crítica, caímos numa espécie de milenarismo, esperando que um dia todo o mal do mundo seja varrido e o reino da justiça seja implantando. E milenarismo é sempre uma armadilha, um vício, que destrói a inteligência de qualquer um.

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