Trigésima postagem no blog


Com este texto, chego a trigésima postagem do ano no blog. Não pelo fato de ser muita coisa, mas pelo fato de ser uma marca que se iguala às postagens do ano de 2007, me parece um número a comemorar. Além disso, já somo mais de 60 textos escritos, alguns mais longos, outros mais curtos, mas textos próprios, sem contar aqueles que escrevi e não tive coragem de postar. Ao mesmo tempo que chego a este texto, me parece necessário colocar que um dos meus mais assíduos leitores, que sempre me estimulou a escrever e fez comentários sobre meus textos já não lê mais o blog.
O leitor do qual estou falando é meu amigo Cesar Colla, falecido no dia 12 de novembro deste ano, aos 58 anos. Colla era uma figura diferente das outras pessoas que eu conheci. Primeiramente porque era a única pessoa da sua geração que eu conhecia que se dizia abertamente positivista. Tenho amigos calvinistas, católicos, budistas, adventistas, agnósticos e ateus, mas ele era o único positivista. Sua crença na religião da humanidade de Augusto Comte era a maneira que ele havia encontrado para colocar seu ateísmo num rumo construtivo para humanidade.
O Cesar tinha um saco de paciência gigantesco para com todas as pessoas. As vezes era meio ranzinza, as vezes meio ácido, mas sempre viu na religião um meio para o ser humano tornar-se melhor. Um aperfeiçoamento humano. Essa era a meta que ele buscava e que sempre passou e ensinou aqueles que com ele convivia. Meu primeiro encontro com o Cesar foi por causa da Indiara, minha atual esposa e na época pretendente a namorada.
Vou contar a história rapidamente e espero que meus outros leitores não se aborreçam. A Indiara precisava fazer um trabalho para uma disciplina da faculdade de sociologia que ela cursava. Para tanto, precisava pesquisar sobre o positivismo de Comte. Minha mãe conhecera o Colla nos anos 1970 e através de seus contatos me informou onde eu poderia encontrá-lo. Fomos, Indiara e eu, a casa de Colla para conversarmos sobre o que era o positivismo, de modo a poder fazer um bom trabalho para a faculdade. Meu interesse no momento era mais em agradar a Indiara, de quem eu já gostava. O interesse dela ela estava no trabalho de faculdade. O Colla e sua mulher, Ivânia, que na época ainda era namorada, estavam interessados em saber quem eram aqueles dois jovens preocupados com o positivismo, e certamente viram em nós dois futuros amigos.
O Cesar não era um "crente" chato, proselitista. Nunca falava mal da religião dos outros. Na verdade acho que ele nunca me perguntou qual era minha fé ou em que eu acreditava. Cultivamos uma amizade que se estendeu desde 2001, ano em que eu o conheci, até então. Lembro de um episódio em especial, o dia 15 de novembro de 2001, em que eu e o Colla fomos à praça Tiradentes, no centro de Curitiba, lavar a estátua de Benjamim Constant, que até hoje é a estatua melhor conservada da praça. Saímos numa reportagem da Gazeta do Povo, cuja fotografia da época espero poder retomar quando tiver oportunidade.
Não lembro exatamente a data de 2002, mas nunca mais pudemos repetir a lavagem da estátua. Um acidente de carro lhe deixou paraplégico, e quase lhe tirou a vida. Durante mais de um ano o Colla sofreu muito, muito mais que qualquer ser humano mereceria sofrer. Não fosse o amparo de sua esposa, Ivânia, certamente teria falecido muito antes. Mas o acidente pode até ter tirado quase todos os movimentos do grande Cesar, mas não impediram que ele dedicasse uma parte cada vez maior de seu tempo a escrever. Colla escreveu, depois de recuperado parcialmente de algumas seqüelas do acidente, mais de 150 textos de uma ou duas páginas sobre sua visão da vida, através do positivismo. Fez vários textos sobre os grandes tipos humanos.
Cesar me enviou o último texto dele, tratando do amadurecimento, por volta das 14:00 de terça feira dia 11 de novembro. Nunca mais eu leria um texto do Colla em primeira mão. Ele se foi, por conta de uma infecção, deixando a vida para gozar do merecido descanso dos justos. Alguns dias antes tínhamos conversado pela internet, e falamos de algumas coisas da vida. Por exemplo, que quando morremos, nossa vida continua por meio da nossa obra. Nossa obra são nossos amigos, nossos escritos, as árvores que plantamos, as pessoas que amamos e os filhos que criamos. Esta é a visão humanista de vida após a morte. Que os vivos são sempre influenciados, guiados, na verdade, pela ação dos mortos. O computador em que escrevo, e mais, o idioma que utilizo (e muitas vezes maltrato, todas estas coisas são fruto da ação do passado sobre o presente.
Ao mesmo tempo eu ajo neste momento sobre o futuro. Confesso que estou um tanto triste e decepcionado com a morte do Colla. Eu gostaria que meus amigos e familiares ficassem todos vivos enquanto eu vivesse. Ao mesmo tempo, sei que as ações do Colla em vida repercutem sobre minha própria vida, minha visão de mundo e meus escritos. Espero um dia poder realizar uma obra que me propus junto com ele, de editar seus textos na forma de um livro. Sei que isto teria um significado muito grande para o Cesar, e que esta é uma forma de mantê-lo vivo, pelas gerações que seguirão.

Meu trigésimo texto de 2008 neste blog é um texto de promessa de continuidade. Enquanto estiver vivo, espero continuar contribuindo para melhorar a mim mesmo e a sociedade onde vivo. Espero seguir o ideal humanista de viver para os outros, e ao fazer isto, o fazer as claras. Meu grande amigo se vai, mas suas lições permanecerão vivas sempre para mim. Cesar Colla foi a primeira pessoa que deu significado a expressão amigos até o fim.

Fernando R.

Comentários

Anônimo disse…
Boa tarde meu nome é Abel. Fui fisioterapeuta dessa figura única chamada Cesar Colla. Cada sessão era um apanhado de risadas e reclamaçõers do grande ranzinza Cesar.
Estou a 5 anos morando em Estrela-RS, fiquei sabendo apenas hoje que um dos pacientes que marcaram minha estória profissional se foi, porém como ele dizia minhas obras ficam. E que ele descance em paz.
Meu e-mail é
:abelcunhajunior@hotmail.com
Favor passá-lo a Ivania. Fuii

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