SOBRE SÍMBOLOS E SONHOS

 

Ontem, quarta-feira, 19 de novembro, o jornal nacional trazia como matéria de destaque o desespero dos diretores de Ford, General Motors e Chrysler para conseguir a aprovação no congresso de um pacote de US$ 25 bilhões para impedir a falência destas três empresas, que estão em sérios apuros financeiros. Sem o pacote, diziam os diretores, as empresas não conseguiriam terminar o ano. Não haveria dinheiro em caixa, tampouco condições para financiá-lo, de modo que a declaração de falência torna-se uma opção (ou falta de) real.

Então aparecem aqueles americanos conservadores que clamam pelo salvamento das empresas, que são um "símbolo" do capitalismo americano. Eles pedem "salvem nossos empregos" para o governo americano, por conta da concorrência desleal com os japoneses, chineses, coreanos, europeus, mexicanos, etc. O último governo a "salvar" os fabricantes de automóveis foi o governo Reagan, e ai vem a questão de que símbolo eles querem salvar.

As três grandes fábricas de automóveis são três grandes exemplos de gestão empresarial ruim. Não importa o que seja feito, a GM não sairá do buraco sem resolver um problema que ela mesma criou nos anos 1970: o passivo trabalhista. Este símbolo americano concordou e pagar aposentadorias para os funcionários da empresa a partir dos 55 anos de idade, e em bancar do próprio caixa a pensão dos aposentados. Quem se aposentou naquela época está hoje com 90, 95 anos assistindo do camarote a falência da GM. Os conservadores de plantão dirão que foram os sindicados que forçaram a GM a aceitar este sistema absurdo de previdência. Não foi. A empresa poderia, naquela época, ter optado pelo caminho difícil de fechar fábricas, diminuir a produção, perder participação no mercado e tentar se reerguer em outro momento. Para não perder naquela época aceitou a atual situação de ingerência.

A GM oferta nos EUA alguns dos piores veículos para o público americano. Na contra-mão da tendência dos outros fabricantes, o foco das divisões da GM são as caminhonetes. Grandes sedãs e outros carros menores saíram do catálogo. Enquanto os europeus buscaram o mercado americano, os americanos simplesmente ignoraram o mercado europeu. Não se vendem Cadilac na Europa, pelo menos não na mesma escala que se vendem Mercedes nos EUA. Há dezenas de marcas de automóveis que são apenas do mercado local. A GM tem as divisões européias, australiana e brasileira, mas não troca experiências entre elas como seria de se esperar. É um exemplo de má gestão.

No caso da Ford, a diversificação na linha de produtos não ocorre há vários anos. No começo dos anos 2000 a Ford tirou de linha seu maior sucesso de mercado nos anos 1990, o Ford Taurus, assumindo a derrota para os sedãs japoneses Accord e Camry. Ao invés de se mobilizar para fazer um carro melhor e concorrer, ela preferiu se refugiar no seguro mercado de caminhonetes. No caso do Brasil, a Ford é o fabricante que menos investiu na diversificação de produtos, e não é por acaso que está perdendo participação no mercado, justamente no momento em que todos estão crescendo.

A Chrysler é uma vergonha que a muito já deveria ter sido afundada. Nos anos 1990 ela virtualmente faliu, e foi comprada pelo grupo alemão Daymler-Benz. A impossibilidade de mudar a cultura da empresa levou a Daymler-Benz a se desfazer da encrenca, mesmo perdendo US$ 31 bilhões no negócio (comprou por 36 e vendeu por 5). Além disso a Chrysler por meio de sua divisão Dodge saiu do mercado brasileiro num momento de crise, que foi superado com a maior recuperação da história. É certo que a Chrysler não tinha um carro para nosso mercado, porque apesar de ser uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo, ela é uma empresa doméstica, que produz voltada para o mercado americano. Sua especialidade são jipões, caminhonetes, sedãs grandes e pesados, não possuindo nenhuma linha de compactos. Por isso ela não tem produto para conseguir volume de vendas em nenhum lugar do mundo que não seja os EUA. É um empresa doméstica numa era de globalização.

Caso estas três empresas venham a falir, dificilmente fariam isto de uma única vez, mas aos poucos, das quais a mais frágil certamente é a Chrysler, haveria uma perda ou uma vitória? Acredito que o maior símbolo americano em jogo é o respeito ao consumidor. O capitalismo se constrói em cima do respeito ao consumidor, não na proteção ao produtor. Todas as outras empresas que fabricam automóveis nos EUA oferecem produtos que os clientes querem e obtém uma remuneração que lhe permite cobrir as próprias despesas. Num momento de crise, reduzem a produção, demitem funcionários. Nenhuma delas utiliza de seus problemas internos como ferramentas de ataque aos políticos que estão no poder. As três grandes o fazem.

Elas usam seu tamanho e os empregos dos seus funcionários como massa de manobra política para conseguir favores do governo. Não concorrem no mercado, concorrem com lobbies. Sua falência será um grande ganho para consumidor americano. Além disso, os pensionistas da GM devem ficar sem suas aposentadorias, pois são imerecidas. Não pagaram o suficiente por elas, nem trabalharam o suficiente para obtê-las. São um programa social, não uma conta de previdência. A falência de seus fundos de aposentadoria seria uma lição tardia, mas importante, para o abuso que os sindicatos fazem do seu poder. A falência destas empresas salvaria o maior símbolo americano, o de que a responsabilidade individual é o preço da liberdade, e que vale a pena ser livre e responsável. Quanto as empresas, elas podem se recuperar depois. Mesmo que a atual gestão mostre que estas empresas são lixo, elas ainda são marcas famosas, e certamente não desapareceriam no nada.



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