ASLFALTO É O PRINCIPAL DESEJO DOS CURITIBANOS

ASFALTO É O PRINCIPAL DESEJO DOS CURITIBANOS.


por Fernando R.

 

            Num texto na Gazeta do Povo de domingo discute-se o resultado da pesquisa que fora feita entre os curitibanos em 2008, às vésperas das eleições municipais e o compara com outra, feita nos anos 1970 antes da principais "soluções" urbanistas serem implementadas na cidade. A principal reivindicação dos curitibanos era, e ainda é, por pavimentação adequada nas ruas.

            O autor do texto no jornal tenta argumentar porque as pessoas se preocupam apenas com o asfalto deixando as outras questões de lado, e assim procura mostrar que os políticos devem agir como visionários, vendo os problemas que o povo não enxerga. Além disso, aponta-se que Curitiba é uma cidade que conseguiu fugir da armadilha dos viadutos, e que as soluções urbanísticas são possíveis na cidade.

            Já faz algum tempo que eu ando meio sem paciência com a arrogância dos urbanistas e jornalistas de Curitiba e sua pretensão de saber o que é melhor para a cidade. Digo isto porque vivo nesta cidade e vejo a ineficiência do chamado planejamento urbano daqui e como as preocupações deles diferem do discurso que fazem. Primeiramente, os técnicos do IPPUC dizem que o viaduto enfeia a cidade e piora o trânsito. Que o transporte coletivo deve ser incentivado ao invés do transporte individual. Que Curitiba não tem congestionamentos e que os binários são o boa solução para os problemas de tráfego.

            Quando as pessoas dizem que os buracos na rua e a falta de asfalto são os principais problemas eles estão certos nas suas prioridades. A falta de asfalto, é uma das principais causas de doenças respiratórias. Isto porque a quantidade de pó que os veículos levantam com o atrito dos pneus é muito superior a quantidade de particulados que emitem por seus escapamentos. Asfalto de qualidade reduz a quantidade de pó em suspensão e melhora a saúde da população.

Uma rua esburacada também facilita o processo de levantamento de pó, porque o buraco é um pedaço da via sem asfalto. Além disso, acumula sujeira, diminui o conforto de tráfego e deteriora a estética da rua. Um bairro esburacado parece um bairro abandonado, campo de teste de mísseis como eu costumo dizer, e muitas vezes é isto mesmo, um bairro esquecido. As ruas esburacadas são sempre aquelas onde não há calçadas adequadas, e as pessoas tem que andar no meio da rua junto com carros, ônibus e buracos, onde o fato dos veículos andarem desviando das crateras torna a rua perigosa. Isto afasta potenciais clientes do comércio local. Com isso a rua torna-se vazia e perigosa. Ruas bem pavimentadas são o primeiro passo para uma cidade agradável de se viver.

 

TÉCNICOS DO IPPUC SÃO ESPECIALISTAS EM MARKETING, NÃO PLANEJAMENTO URBANO

 

Agora comento a hipocrisia dos "técnicos" do IPPUC. Eles dizem que o transporte coletivo deve ser priorizado. Certo, concordo em partes com esta tese, e os que lêem regularmente meu blog sabem porque. No entanto, devemos lembrar que as pessoas que andam de ônibus sempre o fazem em no mínimo duas etapas. Saem de casa e andam até o ponto de ônibus e depois saem do ônibus e andam até seu destino. O transporte coletivo é um sistema bi-modal por excelência, pois há sempre combinação entre andar a pé e andar no coletivo.

Se a idéia é priorizar o transporte coletivo é essencial que ele esteja devidamente amparado por um eficiente sistema de calçadas e faixas de pedestre, que são os instrumentos básicos para a segurança passiva do usuário. A ação do IPPUC porém, não considera este fator. Recentemente foi reformada a Av. Mascarenhas de Moraes, que liga o trevo do Atuba ao trinário Santa Cândida-Centro. A via foi inteiramente reformada, com pavimentação em concreto em uma das pistas e a troca de todos os pontos de ônibus da via por novos, o que eles chamam de mobiliário urbano, pronto para receber publicidade.

Os técnicos do IPPUC, entretanto, só colocaram três faixas de pedestre ao longo dos 5 km da via. Nestes mesmos 5 km há algo como 10 paradas de ônibus, uma das quais em frente ao colégio da minha filha. Para atravessar a rua eu tenho duas opções: na primeira eu ando cerca de 500 metros até a faixa de pedestres mais próxima, atravesso a rua na faixa em frente a um cruzamento perigoso, e volto caminhando outros 500 metros pela outra pista para pegar o ônibus novamente. Ou então eu atravesso a rua, escalo um canteiro central gramado numa subida íngrime (nenhum dos carros 4x4 a venda é capaz de vencer este canteiro central) e cruzo a outra pista, sem qualquer tipo de medida de segurança passiva para pegar o ônibus que me traz de volta aminha casa, caminhando 25 metros para cumprir este trajeto. A escolha me parece óbvia pela segunda alternativa, o que é o mais natural e humano, pegar o caminho mais curto. Imagine este alternativa diante de 500 potenciais futuros usuários do transporte coletivo, que são as crianças que estudam nesta escola.

Isto quer dizer que mesmo prevendo o tráfego de pedestres, afinal de contas a escola já estava lá quando reformar a via, os técnicos do IPPUC acharam que uma faixa de pedestre em frente a escola não era necessária. Tampouco um sistema de calçadas que permitam o cruzamento da via de um lado ao outro. Pensem no caso de um deficiente ter que utilizar esta via diariamente?

Outro fato absurdo. Estão reformando a BR-476 que cruza Curitiba de Norte a Sul, numa obra de grande porte chamada linha verde. Está prevista uma ciclovia na linha verde. No entanto, pasmem, esta ciclovia é ziguezagueante, o que é absolutamente absurdo! Estão fazendo uma ciclovia que não será utilizada, pois nenhum ciclista anda fazendo ziguezague na rua. É o mesmo que uma calçada de mesmo formato, ou seja, um estímulo para andar na grama. Os ciclistas vão passar é pela canaleta exclusiva do ônibus, que é plana, bem pavimentada e com pouco tráfego

E todos sabem que as canaletas exclusivas dos ônibus são vias muito utilizadas pelos ciclistas, apesar do tráfego de bicicletas ser nelas proibido. Estas canaletas existem há mais de trinta anos na cidade, e sempre foram utilizadas pelos ciclistas. A preferida é a da Marechal Floriano Peixoto, que liga o Centro ao Boqueirão e é uma das principais avenidas da cidade passando por vários bairros populares. A Marechal Floriano tem faixas para estacionamento dos dois lados da rua e NENHUMA faixa para ciclistas. Agora estão reformando esta rua, por conta da sua integração à linha verde e, novamente, não está prevista nenhuma ciclovia ao longo desta via.

Esta é uma das poucas ruas da cidade cuja inclinação ao longo de todo o trajeto permite o deslocamento de bicicleta, pois passa por áreas relativamente planas. Contudo, os ciclistas continuarão a dividir espaço com os perigosos bi-articulados. Para os técnicos do IPPUC ciclovia serve apenas para recreação. Nem vou comentar o fato de que a Mascarenhas de Morais também não previu ciclovias em seu projeto, apesar de haver espaço na via para que isto fosse feito.

Os jornalistas ainda acham que a população é que é limitada em suas reivindicações à prefeitura. Há trinta anos as pessoas vem utilizando as canaletas como ciclovia e os técnicos não prestaram atenção a isto. Há trinta anos há duas cidades, divididas pela BR-476, e não serão construídos cruzamentos nem viadutos para integrar estes dois lados. A verdadeira vocação dos urbanistas locais é o marketing e não o planejamento urbano.



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Comentários

Paulo Branco disse…
Estava escrevendo para o meu Blog Paulo Branco Radialista ( www.paulobranco.com), matéria sobre a questão das ruas esburacadas em Curitiba, e achei a sua matéria. Muito boa, explanando de forma muito apropriada o tema. Aproveitei um trecho da matéria do seu Blog ( com as devidas referências). Saudações, Paulo Branco.

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