MONSTERS OF ROCK E OS MONSTROS DA IDADE DA PEDRA

Por Fernando Raphael Ferro.
Não estou habituado a fazer comentários escritos sobre a cena cultural, portanto peço aos leitores habituais desde já a complacência pelas eventuais escorregadelas que possa tomar nas notas sobre o show ocorrido na Pedreira Paulo Leminski em Curitiba nesta terça-feira dia 28 de abril de 2015.
Resultado de imagem para monsters of rockResultado de imagem para motörheadReunidos na capital paranaense Ozzy Osbourne, Judas Priest e Motörhead, numa terça-feira quase fria, prestigiados por uma multidão de 15 mil pessoas, quase todos trajando luto. O que se viu foi um show muito bom, que ilustra alguns pontos interessantes da situação atual.
Resultado de imagem para judas priest logoAmantes de heavy metal sempre tiveram uma fama, digamos, levemente controversa: desordeiros, beberrões, barulhentos, mal vestidos. Uma horda de 15 mil destes reunidos poderia representar confusão. No entanto, o grupo ali presente, ordeiramente marchou para dentro da pedreira e acompanhou hit após hit em uníssono, os monstros do rock.
Resultado de imagem para ozzy osbourne logoPor outro lado, os professores da rede pública de ensino, símbolos da ordem, decência, educação e cultura ameaçavam brutalizar e vandalizar a Assembleia do Povo, para impedir que os deputados que ganharam seus mandatos na ultima eleição exercessem seu dever de votar as pautas encaminhadas pelo executivo. Ressalte-se que este também foi democraticamente eleito, e ainda mais, em primeiro turno.
A horda de desordeiros tinha um mínimo de noções de inglês e se divertia pacificamente após seu horário de trabalho: os “educadores”, semiletrados no vernáculo, tentavam depredar o patrimônio público. Enquanto um efetivo de 100 policiais observou de modo sonolento a horda de desordeiros, um exército de 1600 se debateu para conter fascistas hidrofóbicos que tentavam a todo custo impedir a pauta de votações da Assembleia pela força bruta.
Algo que sempre foi mal compreendido é que o heavy metal sempre foi música da working class. A elite sempre preferiu coisa mais leve. O professorado paranaense, que recebe em média mais de R$ 4 mil mensais, encontra-se na Elite do Estado, não na classe C. Posso afirmar, sem medo de errar, que estão na classe B, e nos casos de “endogamia” de classe, na classe A, figurando entre o 1% mais rico da população. Esta elite, como toda elite, quer mais: querem uma fatia ainda maior do orçamento estadual para si.
Obviamente, seu compromisso não é com as crianças em sala de aula, que estão novamente sem receber instrução. No fundo, as crianças em sala, estão sem receber instrução há longas décadas, com notáveis exceções, visto o estado deplorável da educação pública brasileira. Os professores ainda comprometidos com o ensino, não estão certamente empenhados em depredar o patrimônio estadual nem em subverter a ordem democrática. Mas a maioria é fascista.
Agora volto ao show: o heavy metal traz consigo uma mensagem quase anarquista em seu discurso: é a mensagem de pessoas cansadas de carregar o Estado nas costas; mensagem de pessoas que querem chegar ao fim do dia e tomar sua cerveja em paz, sem sucumbir ao peso da hipoteca. São hinos da liberdade, da individualidade, da autoafirmação, da autodeterminação. Por isso o heavy metal e o rock desde o início são quase sinônimos de juventude, rebeldia, estradas, espaços abertos. Monsters of Rock mostrou que os homens que protagonizaram esta cena do rock nos anos 1970 e 1980 envelheceram, mas mantiveram um séquito de fãs; jovens, nem tão jovens e quase idosos. Mas pessoas cientes da sua individualidade e liberdade.
Uma cena marcante foi uma senhora, na casa dos 70 anos, pulando ao som de Paranoid durante o show do Ozzy. Pouco importa o porquê, ou o que significava. Ela estava lá, fazendo o que lhe dava na telha. O odor misturado de tabaco, cerveja e marijuana, em que pese o paradoxo deste último entorpecente num show de heavy metal (me pareceria mais adequado a slice of yellow cake), mostrou que cada um fez o que quis sem se incomodar com o outro. E o mais impressionante: ninguém brigou. Ao final, marcharam cada um para suas casas pacificamente.

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Rob Halford,
vocalista do Judas Priest
Rob Halford ficou positivamente impressionado com a resposta da plateia curitibana em seu show. Certamente, sua reação seria oposta se soubesse o que a turba semiletrada tentara na Assembleia Legislativa horas antes; pior ainda se soubesse do constrangimento a que tem submetido os moradores do entorno do centro cívico, que são obrigados a passar por uma revista de seus carros para “atestar” aos “manifestantes” que não estão levando um deputado escondido no porta-malas. Mas são públicos diferentes. O Heavy Metal, hoje, é apreciado pela nata cultural. Aos professores da rede pública estadual, resta o sertanejo universitário.

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