MERCADO DE CARROS NO BRASIL

Por Fernando R. F. de Lima.

Outro dia, gozando de tempo livre e falta do que fazer, fui analisar os dados de mercado para tentar compreender melhor porque quem é o que é no mercado nacional. As perguntas básicas são: Porque a participação da Renault não aumenta como o esperado? Será o Etios um fracasso de mercado? As vendas do HB20 vão alcançar as do Gol? Qual fábrica pode tirar da Fiat o posto de maior do Brasil? De modo geral, este texto é uma tentativa de responder a estas perguntas, analisando os dados de 2013, considerando também algumas informações relativas à capacidade de produção das fábricas no Brasil e Argentina.
Antes de passar à análise das informações, é bom ter em mente algumas ideias básicas: primeiro, que o normal é que uma planta industrial trabalhe no máximo entre 70 e 90% de sua capacidade nominal. Isto porque erros sempre acontecem. Além disso, a rentabilidade de uma fábrica precisa de uma ocupação média de 70% de sua capacidade. Abaixo disso, pode-se dizer que negócio não está indo bem; acima, que a demanda está aquecida.
Para simplificar, eu avaliei somente a capacidade das empresas de produzirem automóveis em suas plantas dedicadas a esta função. Deixei de lado dados sobre a produção de motores e transmissões, porque além de complicar a análise, não adicionaria informações muito mais relevantes. Outra questão, acerca da metodologia, é que considerei o que é vendido no Brasil e na Argentina. Primeiro porque a Argentina responde por 86% do destino das exportações brasileiras com o México recebendo outros 7% (93% do total acumulado). Depois porque a Argentina é a origem de 54% do que é importado, com o México em segundo com 18,3%. Além disso, a Coréia do Sul (8,1%), China (4,2%) e Alemanha (6,4%), cobrem 90% de tudo que é importado, com o detalhe de que daqueles com fábrica no Brasil, só a VW importa da Alemanha, e só a Hyundai/Kia da Coréia do Sul, influenciando pouco o resultado. Ademais, Volkswagen, Fiat e Nissan/Renault importam do México, as mesmas que exportam para lá, mas em quantidade bem menores (razão de 4 para 1).
Com isso, é fácil perceber que a maior parte do que é fabricado no Brasil vai mesmo para a Argentina e a recíproca também é verdadeira. Os dois países funcionam quase como mercados fechados em termos de automóveis, porque as importações fora do Mercosul e México representam muito pouco no total de veículos comercializados.
Agora os fatos:
FIAT, que possuía 21,34% do mercado em 2013, vendeu 783.587 veículos no Brasil e 102.973 na Argentina. A capacidade nominal de sua fábrica em Betim é de 800 mil veículos/ano e em Córdoba, na Argentina, de 120 mil veículos/ano. Isso significa que suas unidades em conjunto trabalharam com mais ou menos 90% de sua capacidade máxima. A Fiat importa do México o 500 e o Freemont, que são veículos de pouco volume, o que muda pouco a situação em termos de análise de capacidade.
VW. A soma de capacidade das fábricas da VW combinadas (Brasil+Argentina) indicam uma capacidade total de fabricação de 835 mil unidades por ano e as vendas combinadas Brasil Argentina apontam para uma utilização de 88,2% da capacidade instalada. Deve-se destacar que a VW é a maior exportadora de automóveis do Brasil. A VW envia o Gol e o Voyage para o México, de onde traz o Jetta, mas em pequenas quantidades em relação ao total fabricado.
GM. A GM tem uma capacidade anual de produção de 750 mil unidades; suas vendas combinadas entre Brasil e Argentina (726.154) indicava uma utilização de 96,8% da capacidade instalada. Traz do México o Sonic (hacht e sedan) e o Tracker, carros de pouco volume.
FORD. Sua capacidade anual de produção combinada é de 520 mil veículos. Sua taxa de utilização chega a 80,2%, tendo em vista vendas combinadas de 416.913 veículos.
RENAULT. A Renault tem uma capacidade de produção de 528 mil unidades. Suas vendas chegam 365.037 unidades, o que apontaria uma utilização de apenas 70% da capacidade instalada. No entanto, deve-se destacar que a Renault exporta muitas unidades para o México sob a insígnia Nissan, o que eleva a utilização para 81%, condizente com a média de mercado.
TOYOTA. Muita gente na imprensa especializada anda dizendo por aí que as vendas do Corolla mostram que ele envelheceu diante do Civic e que o Etios é um fiasco de vendas. No entanto nota-se que Toyota tem uma capacidade de produção de 140 mil veículos no Brasil, com um volume de vendas de 148.647 em 2013. Soma-se ao montante a fábrica Argentina com capacidade para 92 mil veículos ano, apontando para uma utilização média de 81,3%. No entanto, a Toyota é relativamente fácil de rastrear, porque suas fábricas comportam modelos bem definidos: em Sorocaba são produzidos Etios, que está com aproximadamente 88,6% (capacidade de 70 mil unidades com vendas de 62.037 unidades no Brasil). Na fábrica de Indaiatuba são produzidos Corollas, tendo sido vendidos 54.103 no Brasl e 15.760 na Argentina, o que aponta uma utilização de 99,8% da capacidade nominal. Possivelmente isso indica que a Toyota está bastante satisfeita com seu marketshare, ao menos por hora. Crescimento, só pela via da ampliação de fábricas.
Honda. Há anos ocupa uma posição discreta no Brasil. Sua capacidade de produção é de 120 mil unidades em Sumaré e mais 20 mil unidades numa pequena fábrica dedica ao City na Argentina. A Honda totaliza, nos dois mercados, a façanha de vender 100% do que produz nestas fábricas, o que simplesmente a impede de vender mais veículos do que o que é atualmente comercializado.
Grupos PSA. É o grupo que mais viu sua participação decrescer. No entanto, os dados apontam uma utilização de 70,1% de sua capacidade fabril. Isto significa que, apesar dos pesares, a fábrica do grupo PSA ainda se encontra em nível de lucratividade. É o fabricante com maiores possibilidade de expandir sua parcela de mercado.
Hyundai. A recém inaugura fábrica de Piracicaba, com capacidade para 200 mil veículos por ano opera a 100% de sua capacidade. A Hyundai vendeu 210 mil unidades no Brasil em 2013, o que explica porque o HB20 não é comercializado na Argentina, uma vez que não sobram veículos para nossos Hermanos.
O que esperar do futuro?
A Audi vai inaugura uma linha de produção na fábrica da VW em São José dos Pinhais em 2015, mas será uma fábrica de pequeno volume. A Fiat espera inaugurar ainda em 2014 uma fábrica com capacidade para produzir 200 mil veículos por ano em Goiana, Pernambuco. No segundo semestre de 2015, a Honda espera abrir sua fábrica de Itirapina, São Paulo. Ao menos mais 120 mil veículos esperados por ano. A Mercedes-Benz quer inaugurar uma fábrica em 2016 em Iracemápolis, São Paulo. A Nissan pretende inaugurar ainda no primeiro semestre de 2014 a fábrica de Resende, Rio de Janeiro, com capacidade para 200 mil veículo por ano. Sua participação deverá aumentar, portanto, e a da Renault terá mais espaço para produzir seu portfólio na fábrica de São José dos Pinhais[1]. A JAC pretende abrir uma fábrica com capacidade de produção de 100 mil veículos/ano e a Cherry uma com capacidade para 150 mil veículo/ano.
Com todos estes investimentos, há grandes chances de a Fiat ampliar sua vantagem no mercado ou então partir para a busca pela liderança no mercado argentino. Dada a crise do país vizinho, pode ser que o alvo maior seja mesmo o Brasil. A Renault/Nissan, com a nova fábrica, poderá produzir cerca de 730 mil veículo/ano. Isto é mais que o que a Ford produz na soma Brasil+Argentina. Como há a divisão entre as duas marcas, no entanto, provavelmente a Renault recuperará o 5º lugar da Hyundai e a Nissan pode se consolidar como a maior fabricante japonesa no Brasil. Com a nova fábrica da Honda, será possível ultrapassar a Toyota em vendas; a briga será acirrada pelo 6º lugar. Deve-se considerar, contudo, que a fábrica da Toyota poderá ser ampliada em Sorocaba até o volume de 200 mil veículos/ano, o deixaria a briga mais intensa, já sua capacidade chegar perto dos 400 mil veículos/ano.
Assim, com estes investimentos, a Toyota seria capaz de deixar a Hyundai para trás e perturbar a Renault. No entanto não há nada programado para 2014/15, o significa que este cenário é pouco provável. A Toyota, como é hábito, deverá se concentrar em recuperar vendas no mercado americano, já que Ford e GM ganharam mercado nos últimos anos e a VW está muito agressiva neste mercado.
A Hyundai, apesar do sucesso do HB20, não deverá ampliar sua fábrica tão rápido. Provavelmente irá se preocupar mais com a rentabilidade, aumentando preços e produzindo o SUV compacto, que garantirá margens maiores que os veículos pequenos. Ampliação só a partir de 2016. As empresas com maiores capacidade ociosa (Ford e Renault) é que adotaram as estratégias mais agressivas. Mas seu poder de fogo é limitado. A Renault tem vendas muito boas na Argentina, de modo que dificilmente irá ampliar sua participação no Brasil às custas do mercado platino. Já a Ford irá buscar aproveitar melhor sua capacidade de produção, com o Novo Ka, mas também não será capaz de se aproximar da VW ou da GM. Estas duas marcas, sem ampliações de capacidade produtiva pela frente, devem se manter em segundo e terceiro lugares, revezando-se.
A Fiat, portanto, permanecerá líder no Brasil por mais alguns anos. Para este fabricante o mercado brasileiro é estratégico, porque o Brasil é o país que mais compra Fiat no mundo, provavelmente com a melhor margem de lucro. Seu portfólio é relativamente atualizado e em sintonia com o mercado europeu. Sua nova fábrica provavelmente abrigará alguns novos produtos, como a Picape média, um SUV pequeno e um sedan grande.
A lição.
Acho que a grande lição desde texto é uma só: no Brasil não se vende mais carros porque não se fabricam mais carros. O Brasil é hoje um dos maiores mercados de automóveis do mundo, em que pesem os elevados impostos, a logística de distribuição deficiente, e inúmeras dificuldades em comprar e manter um automóvel. O fato de nossos preços serem mais elevados que média mundial é explicável pelo fato de que há muita demanda e um mercado protegido, cativo, para os fabricantes nacionais.
A instalação de novas fábricas é um meio (talvez o único) de garantir um naco deste mercado, cujas perspectivas, apesar de tudo, são de crescimento gradual no médio e longo prazo. Provavelmente o Brasil irá se tornar o 4º maior mercado de automóveis em 10 anos, atrás somente da China, dos EUA e da Índia. Isso se explica pelo peso de nossa demografia (5º país mais populoso) e por nossa cultura, que valoriza o automóvel e preza pela aparência (o que exige sempre um modelo novo). A Indonésia, mas populosa que o Brasil, ainda é mais pobre e não conta com um parque fabril automobilístico tão diversificado como o nosso. Se você, leitor, quiser mudanças no mercado de automóveis, a notícia é: espere sentado, pois em pé irá se cansar.



[1] Informações do Anuário Estatístico da ANFAVEA

Comentários

Unknown disse…
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