INFLAÇÃO – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES



Por Fernando R. F. de Lima.
Tratar da questão da inflação é sempre um problema controverso. Isso porque apesar de ser bem conhecida como fenômeno, os efeitos e não as causas da inflação é que são diretamente sentidos pelas pessoas. E o principal efeito da inflação é o aumento nos índices de preços de uma determina cesta de bens de consumo. Como nos últimos meses tivemos uma aceleração dos preços no país, com o índice do IPCA chegando perto de 1% ao mês, o que daria 12% ao ano se o índice de mantivesse, o assunto voltou a pauta.
A maioria das pessoas, porém, apesar de reconhecer a conseqüência, muitas vezes desconhece a causa da inflação. Basicamente, podemos dizer que a causa é uma maior quantidade de dinheiro em circulação na economia em relação ao total de produtos disponíveis para o consumo. Como este aumento na oferta de dinheiro não segue o mesmo ritmo do aumento na oferta de produtos, o resultado é um aumento nos preços. A causa normalmente atribuída para a expansão monetária é a fabricação de dinheiro pelo Banco Central, mas este é apenas um fator e certamente não é o mais importante atualmente.
Durante o auge da inflação no Brasil, uma das questões que explicava a persistência da expansão monetária era a capacidade que os estados tinham de emitir títulos como forma de pagar as dívidas, títulos que eram negociados como “dinheiro”, e consequentemente podiam ser utilizados para a aquisição de bens. Atualmente, apenas o governo federal pode emitir títulos para pagamento de dívidas. Os títulos, na prática, são uma forma de “dinheiro”, apesar de não ter a mesma liquidez que o papel moeda. As pessoas que costumam investir em letras do tesouro, no fundo estão ajudando a financiar o déficit do governo. Este dinheiro é utilizado para remunerar os juros da dívida, mas também para comprar títulos, moedas e pagar as despesas que não estão cobertas pela arrecadação de impostos.
Em geral estes títulos não causam uma pressão inflacionária porque eles permitem que o dinheiro fique “guardado” durante uns meses ou anos e, portanto, saia de circulação. Quando o governo quer retirar mais dinheiro de circulação, em geral ele aumenta o juro pago por estes títulos, e com isso atrai investidores. Quando os juros caem, estes investidores procuram melhores opções no mercado, seja comprando imóveis, ações, cotas de fundos de investimento ou ainda bens de consumo. Neste momento este dinheiro aplicado começa a gerar pressão sobre os preços, porque ele será gasto diretamente na economia.
Outra forma de gerar uma pressão inflacionária é conceder crédito para as pessoas poderem consumir ou investir (o resultado é o mesmo, sobre os preços no curto prazo). O crédito nada mais é que um tomar dinheiro emprestado do futuro. As pessoas “trazem” os bens que estariam disponíveis no futuro para serem consumidos no presente. Uma família que levaria 25 anos poupando dinheiro todos os meses para comprar um apartamento, pode comprar aquele apartamento agora e passar os próximos 25 anos pagando prestações de um empréstimo bancário. Ou invés de poupar R$ 500,00 por mês para comprar um carro de R$ 30 mil daqui a 5 anos, ela compra o carro hoje e paga um prestação pelos próximos 60 meses. Esta é uma forma de antecipar o consumo que também gera uma pressão forte sobre os preços.
No Brasil atual, a recente elevação da inflação tem, basicamente, duas causas: a primeira delas é o fato de governo gastar sistematicamente mais do que arrecada. O governo gasta muito dinheiro não coberto pela arrecadação de impostos. Os principais gastos do governo que geram aumento nos índices de preço são salários, previdência e pagamento de benefícios sociais, porque ao recebê-los, as pessoas rapidamente transformam este dinheiro excedente em consumo. Com isso, pressionam os preços. Tem gente que acha que o governo cobra muitos impostos (eu também acho), mas no fundo eles ainda não são suficientes para bancar a conta mensal do governo.
A segunda causa do aumento da inflação foi o aumento na concessão de crédito. Quando da crise em setembro de 2008, as linhas de crédito ao consumidor rapidamente secaram, como reflexo do que estava acontecendo no exterior. Esta falta de crédito teria sido um desastre em vários segmentos, como o automotivo, eletrônicos, eletrodomésticos, mas também máquinas e equipamentos e no próprio financiamento agrícola. Para evitar este desastre, o governo tomou várias medidas para faze o crédito voltar a circular. Uma delas foi um aporte grande ao BNDES, que passou a financiar as empresas, uma redução nos impostos (principalmente o IPI), para compensar o aumento nos juros que poderia ocorrer; a entrada agressiva da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil nos financiamentos de automóveis e bens de consumo duráveis; redução na quantidade de dinheiro que os bancos deveriam manter depositado no Banco Central como garantia aos seus empréstimos, o chamado depósito compulsório.
A inflação só não ocorreu de forma mais acelerada no país porque ela foi compensada pelo aumento das importações, que permitiu uma entrada maior de bens importados no país. As vendas de automóveis e computadores, por exemplo, aumentaram muito nos últimos 2 anos, sendo que a venda de automóveis importados aumentaram muito mais que a média do mercado e os computadores são, em geral, todos produzidos no exterior, apesar de montados internamente. Este crescimento das importações deveria ter levada a uma deterioração do câmbio, com desvalorização acentuada do real. Mas isso não ocorreu porque o Brasil passou a receber investimentos estrangeiros, seja em ações, seja em títulos do governo ou ainda investimento direto, e porque as exportações de produtos primários, como minérios e produtos agrícolas, continuaram em alta, com ganhos significativos de preços. Com isso a moeda sofreu uma apreciação, que permitiu que os importados ficassem ainda mais baratos, compensando a elevação dos preços.
Agora no começo do governo Dilma, atentos a estas causas, o técnicos responsáveis pelo controle da inflação já anunciaram medidas para conter as causas inflacionárias. Uma delas é o aumento do compulsório a ser depositado pelos bancos e uma redução nos prazos para financiamento de automóveis. O Copom (Comitê responsável pela política monetária) provavelmente irá aumentar os juros e sinalizar alta para os próximos meses caso os preços continuem em alta e, por fim, com o crescimento nas exportações de petróleo nos últimos meses do ano passado, o câmbio deve se manter valorizado, o que impedirá uma pressão inflacionário por meio do aumento dos preços dos produtos importados.
Deste modo, a inflação poderá ser controlada sem maiores traumas para a economia, apesar de poder se acelerar ainda no primeiro trimestre do ano. O Brasil não precisará fazer uso de medidas chavistas, como fornecer subsídios ou proibir exportações como é o caso da Argentina e da Bolívia, porque nossa política monetária se encontra bem estruturada, ao contrário da deles. Na Argentina, um aumento gradual, mas constante dos juros e uma redução dos gastos do governo, já serviria para reduzir a pressão inflacionária, de modo ainda mais eficaz que as medidas que estão sendo postas em prática no país.
Na Argentina até havia uma situação muito interessante no país quando eu estive por lá em 2008, que mostrar que não é necessariamente a emissão de moeda que causa aumento nos preços. Era difícil encontrar troco na cidade. Apesar do metrô custar apenas 45 centavos de peso na época, era quase impossível conseguir trocar uma nota de 5 pesos pelo equivalente em moedas. Faltavam meios fiduciários no país. Contudo, sobrava, certamente, dinheiro na conta das pessoas, seja aquele obtido por meio dos salários ou então por meio de rendimentos de aplicações financeiras, aluguéis ou rendimentos empresariais.

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