FREAKONOMICS – CATALAXIA EM ESTADO AVANÇADO

por Fernando R. F. de Lima

 

Há poucos meses fui presenteado por um amigo com uma versão do livro Freakonomics. Ganhei uma versão em inglês, revisada, com algumas entrevistas com os autores no final do livro. Ainda não se trata do último livro de Steven Levitt e Stephen Dubner, Superfreakonomics, mas do primeiro livro deles. O caráter de bestseller deste livro faz com que apresentações e resenhas sejam desnecessárias, uma vez que vários pessoas, e certamente muitos dos leitores deste blog devem ter familiaridade com o conteúdo dos livros. Também já é lugar comum algumas das principais teses discutidas, como a da relação entre a legalização do aborto e a queda na criminalidade. Deste modo, o que vou fazer é uma relação rápida destes autores com um outro, muito caro aos liberais, Ludwig Von Mises.

            Mises, em seu livro Ação Humana, propõem uma mudança no nome da economia para cataláxia. De certa forma, a cataláxia seria uma ciência da ação humana, que se preocuparia em analisar como as pessoas reagem diante de escolhas. O livro Freakonomics, de certa forma, leva as ferramentas utilizadas normalmente em economia para o estudo de diversas questões surgidas da ação humana e, neste sentido, radicaliza as idéias da cataláxia. Desprovidos de ideologias simplistas, os autores do livro tentam estudar as questões a partir de uma premissa básica: as pessoas reagem a incentivos. A partir da compreensão dos incentivos corretos, é possível compreender como determinadas ações representam reações a incentivos postos pela sociedade.

            A partir deste ponto de vista, o que os autores de Freakonomics fizeram foi dar corpo as idéias de Mises sobre o que deveria ser a economia, ou melhor, a ciência da ação humana. As ferramentas de análise, advindas da estatística, da econometria e de tantos campos quanto possível, mostra de um jeito poucas vezes visto a interdisciplinaridade de múltiplas ciências sociais. O nome do livro, que é quase uma piada sobre seu conteúdo, no fundo não faz jus ao verdadeiro alcance de suas idéias e de sua aplicação.

Se Ação Humana, de Von Mises, é um livro teórico sobre o modo como as pessoas agem, incluindo uma explicação extremamente didática do princípio da utilidade marginal, Freakonomics pode ser lido como sua aplicação, por mais que os autores não tenham tido em nenhum momento esta intenção explícita. Por estas e outras razões, eu recomendo a leitura deste livro, que aponta, entre outras coisas, uma utilidade para as pesquisas e a ciências sociais.

 


 

Comentários

Fernando

Parabéns pelo seu comentário.
Os livros Freakonomics e Superfreakonomics são excelentes, ou melhor, surpreendentes e de leitura e discussão obrigatórias.
Os livros não são teóricos, trazem dados e fatos novos a discussões velhas.
Um grande abraço

João Carlos Cascaes
Curitiba, 14.6.2010
INTERCEPTOR disse…
Fernando,
O Freaknomics foi uma das melhores leituras que fiz nos últimos tempos. Gostei , particularmente , do capítulo sobre a derrocada da Ku Klux Klan - a publicidade como arma. Mas, tenho um senão contra sua extensão indevida: as pessoas não são 100% racionais, entendendo como racionais econômicas. Também somos guiados por valores, o que Weber chamava de Racionalidade Substantiva (em oposição a Racionalidade Paramétrica que seria o foco dos autores de Freaknomics). Acontece que na maior parte de nossas ações sociais (estou pressupondo/chutando que assim o seja), não nos apoiamos em religião, ideologia ou algum outro tipo de valoração, mas agimos 'mecanicamente' por assim dizer. Aí é que a lógica econômica se faz valer. E aí é que a análise social, para nos apoiarmos em um objeto, o fato social de Durkheim seria interessante de ser explorado e aprofundado, um fato consequente de interações. Mas, estas interações nem sempre são objetivas e racionalmente explicáveis.

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