MICROVESTIDO E CIVILIZAÇÃO



Por Fernando R. F. de Lima

MICROVESTIDO E CIVILIZAÇÃO
Por Fernando R. F. de Lima

Como alguns dos meus leitores devem saber, há tempos estou devendo uma resenha dos livros “A sociedade dos indivíduos” e “O processo civilizatório”, ambos de Norbert Elias. Contudo, não será ainda nesta oportunidade que eu vou escrever especificamente sobre ambos os livros. Dada a repercussão do caso Geyse Arruda nos jornais, na TV e na internet, entretanto, vejo uma oportunidade para inserir alguns comentários sobre o episódio baseado no que li de Elias sobre a questão dos costumes.
A atitude dos alunos da UNIBAN em relação ao vestido da moça, que chegou perto do atentado a integridade física da pessoa, é algo que diz muito sobre as pessoas que lá estudam, e não apenas sobre elas, mas também sobre a nossa sociedade. Nós, brasileiros, temos um autoimagem muito positiva em relação ao sexo e as questões da sexualidade, imagem que nem sempre está perfeitamente adequada às nossas próprias atitudes. Nos vemos como um povo liberal em matéria de costumes mas, no fundo, pode-se dizer que grande parte da população brasileira, mesmo a instruída, como é o caso dos universitários, não é muito diferente da multidão da UNIBAN que atacou a moça.
Seguindo o raciocínio de Elias no livro “O processo civilizatório”, entendemos que para que uma mulher ande em roupas tão mínimas, como era o caso de Geyse Arruda no dia do incidente na UNIBAN, é necessário um grau acentuado de autocontrole por parte dos indivíduos que compõem aquele ambiente. Este autocontrole, que é um dos resultados do processo civilizador, é a capacidade que as pessoas desenvolvem, por meio do condicionamento contínuo, de conter seus impulsos instintivos, naturais, digamos assim, quando em ambiente público. Apesar de nossa aparente liberalidade, pode-se perceber que o brasileiro médio ainda não é capaz de manter estes níveis de autocontrole em público.
Este tipo de comportamento da massa, portanto, é uma ameaça real e constante não apenas para as moças de minissaias, mas também a outros indivíduos que afrontam o código não explícito de permissões e proibições de comportamentos em ambiente público. É aqui que entram as curiosidades sobre o nosso comportamento. Numa praia, por exemplo, uma pessoa pode andar em trajes mínimos, como biquínis e sungas sem que isso cause escândalo ou gere uma ameaça a integridade física das pessoas. Mas num ônibus, qualquer pessoa que entrasse no coletivo de sunga ou biquíni seria automaticamente hostilizada.
As mulheres são particularmente afetadas por este tipo de comportamento. Uma moça com calças justas ou blusas com decotes em ônibus cheios de pessoas é um alvo fácil para marmanjos que tentarão ficar próximos delas, insinuando cantadas e mesmo chegando a encostar e roçar no corpo da pessoa. Isso mostra que as fronteiras entre os corpos ainda não estão plenamente definidas no imaginário popular.
Por outro lado, nunca ouvi falar nem li em jornais sobre manifestações públicas de repúdio a homens que urinam em lugares públicos, o que me parece uma afronta muito maior à decência e à urbanidade que o uso o de roupas curtas. Este ato, que expõem uma parte do corpo considerada íntima, só passível de exibição privada e ainda assim em momentos de intimidade, não causa nenhum tipo de revolta ou indignação popular se feito de forma discreta. O mesmo já não se pode dizer de um beijo homossexual, seja masculino ou feminino, em determinados ambientes (sobre nos mesmo ambientes onde se urina em público, e mesmo no caso de adotarem a mesma discrição).
Isso mostra que nós brasileiros vivemos ainda num estágio um tanto primitivo na escalada da civilização, sobretudo nos ambientes urbanos. A inviolabilidade do corpo ainda não é considerada um direito absoluto no Brasil. Isto se aplica tanto no caso das mulheres, quando vítimas de agressões sexuais, quando dos homens, nos casos de abordagem policial. O direito ao corpo e a sua integridade é constantemente relativizado pela sociedade brasileira, em seus diferentes setores.
Neste ponto do texto, cabe fazer um elogio a postura adotada pelo Reinaldo Azevedo, que desde o início se colocou como um defensor incondicional da integridade física de Geyse Arruda. Com base neste direito a integridade construiu toda a argumentação em defesa da moça. E este é também o momento de deixar claro que a postura de Décio Machado, responsável pela primeira expulsão de Geyse Arruda, apesar de coerente com a mentalidade dos alunos que tentaram linchá-la na UNIBAN, é uma aberração do ponto de vista da civilização. Uma pessoa com atitudes como a dele jamais poderia ocupar a posição que ele ocupa na sociedade paulistana, já que ele além de advogado na universidade é também conselheiro de educação do Estado de São Paulo.
A defesa da propriedade privada só é plena e coerente com o liberalismo quando engloba também a defesa da primeira propriedade de qualquer pessoa, que é o próprio corpo. E o direito ao corpo e a sua inviolabilidade é necessário para construir uma sociedade liberal, democrática, capaz de viver pacificamente sob leis e sob o direito. Quando não se acredita na inviolabilidade incondicional do corpo, deixa-se de acreditar no monopólio estatal da violência. Passa-se a flertar com um “direito natural”, um estado de natureza hobbesiano onde todos podem se voltar contra todos. Num ambiente assim é impossível prosperar uma sociedade contratual moderna, liberal e democrática.
É possível que eu tenha extrapolado neste texto meu foco de interesses e os temas aos quais eu normalmente me atenho. Também é possível que eu tenha simplificado um pouco demais alguns temas cuja compreensão demanda mais complexidade e espaço do que o disponível neste texto. Mas acredito, contudo, que é fundamental que todos os que desejam uma sociedade mais livre compreendam que nunca conseguiremos isto enquanto não tivermos ensinado a nosso povo como e onde conter seus instintos, respeitando a inviolabilidade do ser humano. Isto não é uma consequência natural da evolução de nossa sociedade: isto é um comportamento aprendido, que deve ser ensinado, condicionado e cobrado de todos desde a mais tenra idade. Sem isso, não há liberalismo possível, nem estado de direito.


 
Fernando R. F. de Lima
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