CRISE SUB-PRIME NO BRASIL

por Fernando Raphael

 

            Nos últimos meses vários são os economistas de plantão que têm se dedicado ao tema do crédito sub-prime no Brasil. Eles alardeiam este fato para diversos setores, mas o crédito para a venda de automóveis é o mais mal visto nos últimos tempos. A hipótese básica proposta por estes economistas consiste na idéia de que o índice de inadimplência nos financiamentos de veículos novos irá crescer nos próximos meses, ou no próximo ano, em função dos prazos dilatados para a compra dos automóveis, o que irá ter um impacto negativo no mercado de veículos, com desvalorização dos semi-novos e usados, e queda nas vendas dos automóveis novos.

            Há porém um fator que creio crucial para fazer uma previsão desta envergadura: a falta de informações disponíveis. Isto porque não há em nenhum dos textos que tratam desta questão alguma informação sobre qual a porcentagem de veículos novos sendo financiados em relação aqueles que são comprados a vista. Não posso generalizar para outros fabricantes, mas até bem pouco tempo, no ano de 2005, cerca de 70% dos automóveis que saíam das concessionárias Toyota em Curitiba eram pagos a vista. Uma das metas do banco Toyota era aumentar o índice de financiamentos, dado que em outros mercados, como os EUA, este índice é justamente o inverso.

            Talvez na Fiat e na Volkswagen a porcentagem de carros pagos a vista seja menor que na Toyota, e dado o perfil do comprador é bem possível que isso de fato ocorra. Mas aí esta outra particularidade do público brasileiro. Dificilmente os financiamentos são feitos com uma entrada inferior a 20% do veículo, sendo que normalmente ela é maior que isso. O brasileiro costuma comprar um carro financiado, pagar por ele, e depois da-lo de entrada num outro carro, o que muitas vezes chega a representar cerca de 50% do valor do automóvel. Pelo sistema atual, o carro financiado é alienado ao banco, e caso o consumidor atrase algumas prestações, o carro é apreendido e leiloado. Normalmente por preços abaixo do de mercado, que cubra a dívida com o banco. No entanto, nunca ouvi falar (e talvez de fato existam numerosos casos que pela ausência de estatísticas eu desconheço) que algum banco teve grande prejuízos com este sistema ou que algum usuário teve ressarcido os 50% do veículo ou ainda o valor referente ao que sobrava da dívida.

Um exemplo: a pessoa compra um carro de R$ 30 mil dando R$ 15 mil de entrada. Financia o saldo em 48 vezes (o prazo médio é de 42 meses). Depois de 24 meses a pessoa não consegue mais pagar a prestação. Dada a desvalorização média do mercado, o carro usado dela irá valer cerca de R$ 26 mil. Ela pagou metade do financiamento, que neste prazo tem um juro médio anual de 20%, restando uma dívida próxima de R$ 10 mil com o banco. Se o carro vale R$ 26 mil, o certo seria que ela tivesse reembolsado pelo banco cerca de R$ 16 mil. Eu nunca vi isto acontecer. Por isso, nunca ouvi falar em banco que tivesse prejuízo.

Além disso, o modo em são compostas as tabelas de pagamento dos financiamentos também são abusivas. Os 8 primeiros meses de um contrato de 48 meses servem, em geral, apenas para quitar os juros do contrato. Isto é, paga-se o juro dos 48 meses em 8 meses. Caso o consumidor queira quitar o contrato lá pelo 12º mês, ele não terá o desconto dos juros proporcional do final do contrato, porque ele começa pagando os juros, e depois passa o restante do tempo pagando o principal. Isto é, o banco cobra antecipado os juros anuais de 20%, o que me parece muito errado. Este é um sistema extremamente seguro para os bancos, que recebem os juros (em geral abusivos eu diria) antes do prazo do contrato, e depois amortizam o principal ao longo de 40 meses, o que acaba funcionando como um ônus extra contra a quitação antecipada do financiamento.

Por estas e outras, eu particularmente digo que não haverá no curto prazo crise alguma de crédito sub-prime no financiamento de automóveis no Brasil. As garantias dos bancos são muitas, e mesmo em caso de prejuízo, eles ainda têm muitos meios de recuperar o principal da dívida, já que os juros já terão a muito sido pagos. Além disso, há um outra modalidade que talvez ganhe força no país, o leasing, que ainda tem muito o que crescer.

Isto porque no Brasil o leasing funciona às avessas. Lá nos EUA o cara financia 60% do automóvel. Então, se o carro custa R$ 30 mil, num exemplo hipotético, ele financia R$ 18 mil e paga esta quantia ao longo de um período (normalmente 4 anos). Ao final, há um resíduo de 40% do valor do veículo novo, que o consumidor tem a opção de quitar e ficar com o veículo ou devolve-lo para o banco, recebendo o que sobra da quitação do contrato e comprando outro automóvel. Aqui o consumidor paga os 40% do residual do leasing antecipado, e ao final do contrato tem um veículo usado e depreciado de "brinde". Isto é, o Brasil, como costuma dizer o jornalista Geraldo Tite Simões, é o país às avessas, ou Lisarb como ele o chama.

Pra finalizar, caso realmente haja uma crise de crédito sub-prime no mercado de automóveis no Brasil, esta crise seria muito bem vinda, para poder redimensionar o mercado de automóveis, que atualmente está muito lucrativo para alguns e ao mesmo tempo muito prejudicial ao consumidor. O que o país realmente precisa é de um aumento na competição entre os bancos. Uma abertura ampla deste mercado, que é o mais lucrativo do mundo atualmente, seria muito boa para os consumidores.



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Comentários

Anônimo disse…
Tudo bem que hoje, passado quase 1 ano da publicação desse texto e com o surgimento dos fatores abaixo:
1) Aumento do Prazo máximo de financiamento para 84 meses
2) Aumento do dollar ( o que ocasiona um aumento do custos dos itens básicos de consumo e compromentem o pagamento de dívidas )
3) Crise de crédito que levou muitos ao desemprego.
Talvez o risco de haver um mini sub-prime no seguimento automotivo brasileiro já deve ter aumentado um pouco.
Bom, mas de qualquer forma, o conteúdo do texto foi muito elucidativo e muito bem apresentado. O autor está de parabéns !

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