Em defesa do transporte individual

        Recentemente adquiri uma motocicleta para realizar meus deslocamentos diários, e abandonei de vez o ônibus. Nos dias de chuva eu circulo de ônibus ou de carro, conforme a distância ou conveniência. Nos dias de sol, eu vou de moto, economizando tempo e dinheiro. Em um mês de uso, eu rodei com meu veículo aproximadamente 700 quilômetros e fiz uma pequena viagem com 300 quilômetros no total. A média tem sido de 25 km/l o que significou 40 litros de gasolina, ou R$ 100,00, já que a gasolina está custando mais ou menos R$ 2,50 o litro. Minha esposa faz trajetos parecidos com o meu, usando o carro, rodando mais ou menos 700 quilômetros por mês. Ela gasta dois tanques de 60 litros num mês normal, o que significa R$ 150,00. O carro faz mais ou menos 12 km/l, ou seja, menos da metade da moto e, do mesmo modo, leva uma única pessoa.

            A minha moto é maior e mais gastadora do que a média, porque eu sou maior que média das pessoas e viso uma utilização mais voltada para o lazer. Mas o motociclista médio possui motos de 125cm³, que em geral fazem médias próximas a 35km/l. Para uso urbano, são tão competentes quando a minha motocicleta, apesar de menos confortáveis. Supondo que eu fizesse apenas 3 viagens de ônibus por dia, neste mesmo mês eu teria gasto R$ 131,00 de ônibus, quando na realidade eu costumava fazer mais de três viagens, e alguns dias fazia até cinco, sem contar os vários quilômetros andando a pé. Minha economia pessoal em termos apenas monetários chegou a R$ 31,00, isso desconsiderando que eu fiz uma viagem de 300 km no mês. Meu exemplo particular mostra o quão vantajoso é andar de moto numa grande cidade.

            Recentemente, os inimigos do transporte individual passaram a fazer um campanha contra os motociclistas dizendo que as motos são um problema ambiental. Eles também dizem que as motocicletas são responsáveis por 19% dos gastos com atendimento a feridos em acidentes, o que representa o dobro da proporção de motos no total de veículos. Eles também dizem que as motos poluem mais do que os carros e fazem mais barulhos. E dizem, de um modo geral, que os veículos são os maiores responsáveis pela emissão de poluentes. Tudo isso é mentira, e eu vou mostrar porque neste breve artigo, fazendo uma defesa do transporte individual, em geral, e das motocicletas em particular.

            Em primeiro lugar, as motos não poluem mais do que os carros por razões muito simples: elas economizam combustível, utilizam menos óleo para lubrificação e seus pneus empregam menos material que os pneus de carro, além de se desgastarem muito menos. As motocicletas emitem ruídos, mas sua emissão é pouco maior que a de um carro, além de ser mais difusa, pelo fato do ruído ser mais agudo, e se dispersar mais facilmente no ambiente urbano.

Além disso, seus pneus têm menos contato com o solo, fazendo com que a barulho de rolagem seja muito menor. As motos que atuais possuem motores 4 tempos, como o dos automóveis, e poluem, mesmo em termos relativos, menos que um carro de passeio. Além disso, a idade média da frota de motocicletas é menor que a de automóveis, mais ou menos 5 anos contra 10 anos para os carros e 20 para veículos pesados, e portanto, o conjunto de motocicletas polui muito menos que o conjunto de automóveis, mesmo em termos relativos.

            O tempo de deslocamento nos centros urbanos é muito menor para uma motocicleta que para um automóvel, e isso decorre do menor tempo parado. Um automóvel parado emite poluentes, assim como um automóvel em movimento. Só que um carro, num trajeto de 10 km dentro de Curitiba, leva em média 30 minutos, chegando a até 50 minutos no horário de pico. Uma moto leva no máximo 30 minutos, fazendo o percurso em mais ou menos 20 minutos. Portanto o motor de um carro, além de mais poluente, fica mais tempo ligado, gastando combustível sem exercer movimento, o que significa desperdício.

            Mas o coletivista raivoso pode argumentar mais dois tópicos, o da segurança do indivíduo, e que a motocicleta deve ser comparada ao transporte coletivo, e não individual. Neste ponto as vantagens da motocicleta tornam-se ainda mais evidentes que as do automóvel sobre o transporte coletivo. Primeiro porque, se o automóvel já é mais rápido que ônibus e trens, as motocicletas tão um baile sobre este aspecto. O segundo ponto é a economia em relação à tarifa de ônibus, que é mais cara. No caso do carro, a opção pelo ônibus sai R$ 20,00 mais barata. Para a moto, no meu caso,  o ônibus é R$ 30,00 mais caro.

            Quanto a poluição, basta pensar em quanto de poluente um motor diesel, de pelo menos 3000cm³ emite a mais que uma motocicleta, sendo que durante o dia, a maior parte dos ônibus trafegam com menos passageiros que o economicamente desejável. E por fim, a poluição decorrente de todos os fluidos e componentes existentes no ônibus. Há ainda mais uma questão a detalhar. Os maiores responsáveis pela queima de CO2 são as queimadas de florestas, seguidas pela poluição industrial e o consumo industrial e residencial de eletricidade e por fim as emissões de veículos. Dentro dos centros urbanos, a maior parte dos poluente provém dos veículos, mas a emissão de particulados, que são aquelas fuligens que podemos literalmente ver, vem sobretudo dos ônibus e caminhões, e da poeira levantada pela passagem dos pneus sobre o asfalto.

            Portanto, ambientalmente falando, sobretudo no que diz respeito as condições urbanas, o transporte individual é melhor que o coletivo, e quanto mais individual o transporte, melhor. Mas outro custo que normalmente não é contabilizado. Já comentei sobre a questão do metrô em São Paulo, num outro artigo, onde Ladislaw Dowbor destacava que a ampliação da rede poderia significar uma redução de até 30 minutos por dia preso no trânsito para um paulistano médio.

Pois bem, andar de moto faz com que a economia seja ainda maior do que trinta minutos, dada a agilidade que esse veículo representa em relação ao automóvel e ao transporte público. É mais fácil de estacionar, mais econômico e utiliza muito menor área para rodar e parar que um ônibus, e representa um investimento em custo fixo muito menor que o de uma infra-estrutura de transporte coletivo. Além disso, quem paga seus custos, todos os seus custos, são seus usuários, diferentemente do transporte público que implica custos para toda a sociedade, mesmo aqueles que nada ganharão com isso.

Não tenho nada a dizer sobre os acidentes de trânsito. Na sua maior parte, eles são causados por deficiências estruturais do país. Um exemplo bem claro é o da presença de veículos pesados nos grandes centros urbanos, como caminhões e até mesmo os ônibus. São estes os veículos mais responsáveis por mortes. Outro ponto é a questão da imprudência, dos motociclistas, mas também dos motoristas. O poder público também é responsável, já que tem, sistematicamente, reduzido o tamanho das faixas de rolamento, dos adequados 2,8 metros de largura para menos de 2,3 metros em algumas vias, o que dificulta a passagem das motos pelos corredores e leva a um engessamento maior do trânsito.

Outro ponto a ressaltar, que deveria ser da consciência de todos, é que a alternativa aos motoboys são os vanboys, ou seja substituir as entregas feitas por meio de motos por entregas feitas por meio de carros, o que implicaria em mais tráfego de automóveis, mais poluição e mais lentidão. Ou então uma mudança radical no estilo de vida das grandes cidades, que passaria pelo fim dos serviços delivery.

Também se poderia reduzir significativamente a dificuldade em se possuir um veículo de duas rodas, com o fim da habilitação especial para scooters, ou seja, motonetas, que são veículos muito mais simples de conduzir do que motocicletas, já que se dirige sentado e a troca de marchas é, normalmente automática. Isso significaria aumento no número potencial de motociclistas, e favoreceria o uso de veículos racionais. No Brasil, em geral, 80% dos dias são secos, isto é, sem chuva. E o inverno é, em grande parte do país, tolerável para se locomover de moto. Os combustíveis alternativos podem, perfeitamente ser utilizados nas motocicletas e motonetas. Não razões para querer barrar as motocicletas nos centros urbanos, ao contrário, há razões de sobra para facilitar a disseminação de seu uso. Essas vantagens aqui apresentadas podem ser avaliados com fundamentos econômicos sólidos o suficiente para que sejam repensados todos os projetos de reforma urbana e de expansão de serviços públicos.


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Comentários

Anônimo disse…
Concordo com a idéia. Eu também já fiz muito diso, alternando entre moto e carro. O transporte individual ajuda a manter a nossa individualidade.
INTERCEPTOR disse…
Caro Fernando,

Encontrei um estudo americano que corrobora tua tese (segue o link abaixo). E aqui um comentário do site EcoNot:

Mass transit = death by environmentalism--Environmentalists hate the automobile, deeming it one of the greatest of Man's assaults upon Mother Earth. And qua socialists, 'viros also hate the automobile because it is a symbol and means of Man's individuality and independence, allowing each of us to travel wherever he wants to, whenever he wants to. Small wonder, then, that the greens yearn to pack all of us into crowded, government-run cattle cars, hauling us en masse to destinations chosen by central planners. To advance their collectivist vision of people-moving, environmentalists make glowing claims about the relative eco-friendliness and safety of public transportation--buses and light rail trains--compared to the alleged "energy inefficiency" and "danger" of private automobiles. The only problem with these claims is that they are totally false. The Independence Institute has just released a study of the matter titled "Great Rail Disasters," based on the federal government's own safety and energy efficiency statistics. "Turns out overall that buses are much, much safer than light rail, and cars even safer than buses," concludes Institute president Jon Caldara. "Here are the boring stats for fatalities nationally, per billion passenger miles, from the National Transit Data Base: 3.9 for urban interstate highways, 4.3 for transit buses, 11.3 for commuter rail and 14.8 for light rail." As for energy efficiency: "Energy consumption is measured by BTUs (British Thermal Units) per passenger mile. Here are those boring stats nationally: 3,500 for passenger cars, 4,800 for buses and 4,100 for light rail." So, a word to environmentalists: If you want to waste more energy and kill more commuters, then by all means continue to force people out of their private cars and into public transportation. But while doing so, please don't pretend that noble motives and rational considerations underlie your deadly efforts. [Posted 2/25/04]

http://www.econot.com/page7.html

E aqui vai o arquivo do estudo citado:

http://www.i2i.org/articles/1-2004.pdf
Rodrigo Choinski disse…
Concordo que motos podem agilizar o trânsito, mas algumas de suas especulações são incorretas... os ônibus (apesar de gerar uma poluição pior que é a do diesel) são menos poluentes que as motos relativamente aos passageiros que carrega (mesmo contando com o tempo em que trafegam sem passageiros, fora do pico), também relativamente o espaço que ocupam é menor e só perde para bicicleta... apesar de que fica próximo à das motos.

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