LA NAVE VA...

Fernando Raphael Ferro.
           O primeiro semestre já acabou tem praticamente trinta dias e as notícias da barca são ruins. Não que a previsão seja de que estejamos em vias de afundar, mas já possível ver água no fundo do casco, e os que estão no porão já começam a se preparar para o pior. Agora, só para rememorar, o oráculo, que hora vos escreve, relembra o que disse em dezembro sobre o 2015, no já longínquo 25 de dezembro de 2014:
“Para aqueles que chegaram agora à nave mãe, aviso o seguinte: Aécio perdeu a eleição e 2015 vai ser de governo Dilma. Começaremos com aumentos de impostos, redução de gastos públicos e reorganização das finanças nos três níveis de governo. A única das três medidas realmente ruim é o aumento dos impostos. O custeio da máquina poderia ser reduzido, mas esta é uma opção política praticamente inviável nos dias de hoje. Governo gastando menos significa mais dinheiro para a sociedade. A menos que tudo não passe de mais uma manobra publicitária do PT.
Não acredito num desfecho muito amigável ao partido dos companheiros em relação a operação Lava Jato. Acredito até que no final das contas os políticos possam ter penas maiores do que as aplicadas no caso do Mensalão. Por outro lado, duvido muito que de alguma forma isso vá afetar a popularidade ou ainda a governabilidade da Dilma. Tudo seguirá como sempre. No mais, a economia certamente crescerá muito pouco, inclusive a venda de automóveis, que alguns apontam para uma alta de até 3%. Duvido muito que chegue a tudo isso se o governo se mantiver firme no propósito de não prorrogar a alta do IPI.” (aqui)

O governo Dilma manteve-se firme no propósito de aumentar os impostos e de não reduzir o IPI. As vendas de automóveis conforme previsto, caíram. A economia já aponta uma queda de quase 2% para este próximo ano com uma inflação que irá beirar os 10%, e o ajuste fiscal não passou de uma peça de publicidade. A Lava-jato já condenou alguns empreiteiros, alguns doleiros, mas políticos até agora nada. A situação anda muito favorável para a companheirada. Nunca vivemos um momento tão ruim em termos de lideranças neste país.
Comecemos pela presidência, encampada por uma nulidade semianalfabeta, ainda pior que o Lula-molusco que a precedeu, passando pelo Ricardo Lewandowski, no STF, Eduardo Cunha, na Câmara dos Deputados e Renan Calheiros no Senado. Mesmo na oposição não temos ninguém que valha muita coisa, já que o maior patrimônio do Aécio Neves é ser neto de Tancredo Neves (nenhuma realização intelectual ou política digna de nota).
O próximo ano será de eleições municipais e, ao que tudo indica, a proposta de voto distrital para vereadores em municípios em que ocorre eleição em 2 turnos não será aprovada em tempo. Nem vejo ninguém trabalhando para isso. No começo do ano havia algum burburinho por parte de José Serra, autor da proposta, mas tudo parece ter morrido na casca. Era a única mudança razoável. No cenário econômico, os comentários merecem mais do que um parágrafo.
Isso porque a recessão é culpa da falta de coordenação do governo em levar a diante a política que começou. Como todos sabem, elevar juros é só parte da estratégia para conter a inflação. A outra parte é conter os gastos públicos. Só que o corte no orçamento público não passou de fantasia. Como bem explicou Alexandre Schwartzman, o orçamento só teve corte em relação ao crescimento que havia sido projetado para ele, porque na prática o governo irá gastar mais em termos reais este ano que ano passado, tanto em termos absolutos quando em proporção ao PIB. E pior, irá fazer isso ampliando a carga tributária.
Ou seja, as despesas públicas irão pressionar ainda mais a inflação do fizeram no ano anterior. Some-se ainda a pressão inflacionária pela disparada do dólar, que novamente rompeu a casa dos R$ 3,30 e a incerteza quando ao crescimento chinês, que certamente afetará as exportações brasileiras de minérios, soja e demais commodities. No plano interno a coisa vai mal: sem crescimento da produtividade, o que se vê é o aumento do desemprego, sobretudo em setores em que os salários pressionam os custos de produção.
Estamos amarrados, mas a disputa entre um governo corrupto e incapaz de tomar uma decisão acertada sequer, um congresso gerido por gente atrás apenas de um projeto pessoal de poder, uma oposição a espreita das lutas fratricidas entre o executivo e sua base aliada, esperando ainda o desfecho policial das encrencas em que se meteram a companheirada, o que se pode esperar é o prolongamento deste cenário caótico por muitos anos ainda.
No fundo nossa situação se assemelha a do início dos anos 1990, com a diferença de que naquele momento havia alguma perspectiva de mudança para melhor, porque parecia não haver como piorar. Agora ainda há muito espaço para piora. A espiral inflacionária, por exemplo, pode estar só no começo. É necessário corrigir os rumos do gasto público para evitar que a inércia jogue a inflação do próximo ano para além dos 10%, por mais que o BACEN esteja prevendo algo próximo a 5%. Porque os sindicatos virão com toda a força, no próximo ano, reivindicar reajustes em suas data-bases superiores aos 10% da inflação acumulada nos últimos 12 meses, assim como as tarifas de todos os serviços públicos. Ou seja, será necessário romper, novamente, a indexação que os idiotas do PT reintroduziram na economia nacional. Será que o oráculo arrisca mais uma previsão? VDM!

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