ENSINO NO BRASIL: COMO AVANÇAR?

Por Fernando R. F. de Lima.
            Estimulado pelo amigo Anselmo Heidrich e seu breve texto sobre o legado educacional de Paulo Freire, me sinto tentado a especular sobre os caminhos a serem percorridos para avançarmos nesta que é hoje a maior fragilidade do Brasil. Antes que me digam que isto não é da minha conta, respondo antecipadamente que é. E por vários motivos.
Primeiramente, sou licenciado em Geografia, portanto legalmente habilitado para trabalhar como professor. Depois, tenho alguns anos de experiência no magistério, desde a antiga quinta série do ensino fundamental até o nível universitário. Além disso, sou aluno, atualmente, de um curso de graduação em engenharia, onde posso contemplar minhas próprias deficiências em minha formação em matemática e, por fim, sei que a péssima qualidade do ensino afeta diretamente as possibilidades de aumento da produtividade do trabalho e da economia como um todo.
            Dado este breefing, seguimos para a grande questão: como avançar na questão do ensino no Brasil. Obviamente, o que temos feitos nos últimos anos não tem dado certo. Nossas melhores escolas são aquelas que combinam condições muito específicas, praticamente impossíveis de replicar em todo o sistema educacional. As escolas com altos escores nas avaliações institucionais são aqueles que combinam professores muito preparados e muito bem pagos, alunos selecionados, infraestrutura invejável, localizadas em comunidades bem estáveis. Desafio alguém a mostrar um exemplo de boa escola que não esteja enquadrada nestas categorias.
            Para ilustrar, em Curitiba os melhores colégios públicos são os Militares (do Exército e da Polícia), a Escola Técnica da UFPR e os cursos de ensino médio da UTFPR. No lado privado, Bom Jesus e Santa Maria situam-se no topo. Em todos estes há uma combinação de alunos selecionados, uma vez que há concurso para entrar nas escolas públicas e um filtro invisível que exclui maus alunos via reprovação nas duas escolas privadas. Os professores são mais bem pagos que a média, com exceção, talvez, do Colégio da Polícia Militar. Nos demais, os salários são bem mais generosos que o piso do magistério. Além disso, situam-se em comunidades bem estáveis, no caso, todos de classe média alta, dos níveis B e A, mesmo nas escolas públicas.
            Reproduzir as condições destes colégios para todo o país seria, portanto, impossível. Isto porque, independentemente da sociedade em que vivamos, sempre haverá ricos e pobres, mesmo num distópico paraíso socialista. Outra questão é que os recursos humanos também são escassos: como tornar todos os professores bons professores? Para tanto, é necessário elevar a média de um modo geral. Por fim, como estabilizar as comunidades em que as crianças vivem? Para tanto, seria necessário pacificar a sociedade como um todo.
            Eu, pela minha vivência como estudante, pai e professor, vejo que um aluno só aprende quando há combinação de, basicamente três fatores: boa aula, exercícios reforçadores do aprendizado em casa e avaliações periódicas que permitam criar um feedback positivo entre o que é ensinado e o que é aprendido. O professor que dá uma excelente aula mas não cobra lição de casa, nem aplica provas, realiza apenas uma parte do seu trabalho. A avaliação escrita é um estimulo para o aluno prestar atenção nas aulas e estudar o conteúdo. A nota, um reforço positivo de que estudou bastante ou de que precisa estudar mais. Para estudar mais, o aluno precisa praticar, exercitar. O exercício deve ser realizado fora da sala de aula. Para tanto, é necessário que este aluno tenha um ambiente propício a esta atividade.
            Para realizar sua atividade doméstica, o aluno necessita viver numa comunidade estável, com uma família estável. Todos os adultos responsáveis que pagam suas contas obedecem a uma rotina diária. As crianças e adolescentes também precisam desta rotina. Elas necessitam de um espaço em casa para estudar, de um estímulo dos pais para estudar e de um ambiente externo de incentive este estudo. Alguém criado no meio de uma guerra civil, com tiroteios constantes, ou num ambiente doméstico absolutamente desestabilizado, certamente terá muitas dificuldades em preencher este requisito. Do mesmo modo se, ao estudar, a criança ou o adolescente achar que está fazendo algo que só ele e mais ninguém no mundo está obrigado a fazer.
            Para resolver esta questão do meio, é necessária uma pacificação social. Temos que colocar um fim na guerra urbana que vivemos hoje, dando condições para que todos vivam em relativa segurança e paz, principalmente dos ambientes doméstico e escolar. A violência urbana, na minha opinião, é um dos fatores que degrada a qualidade da educação em nosso país.
            Uma solução parcial para o problema do ambiente seria a implantação de ensino integral, que reduziria o tempo ocioso das crianças em casa. O ensino integral, no entanto, não poderia ser realizado do modo como ocorre hoje nas escolas particulares e em algumas escolas públicas, em que o ensino convencional ocorre num turno e o contra-turno serve a outras atividades. As disciplinas deveriam ser distribuídas ao longo de todo o dia, intercalando atividades teóricas, como matemática, gramática, história, a práticas, como esportes, culinária, artesanatos, jardinagem, música e danças.
            Por fim, as provas: eu acho, particularmente, que as provas deveriam ser feitas e aplicadas por terceiros, e não pelos professores que ministram as aulas. Isto porque a avaliação deve ser independente, já que ao avaliar o aluno, avalia-se também o professor. Atualmente, os professores podem se esconder atrás de suas avaliações para forjarem uma imagem de muito rígidos ou muito benevolentes com seus alunos. Avaliações independentes exporiam as fragilidades e deficiências pedagógicas de cada professor.

            As questões de método, de filosofia pedagógica ou qualquer outra minúcia pedagógica ficariam por conta dos conselhos escolares (formados pelos professores) que procurariam encontrar a melhor forma de preparar seus alunos para as avaliações. Em sua sabedoria, os mestres escolheriam os melhores métodos, sendo que aqueles que falhassem sistematicamente em ensinar seriam retirados do mercado por uma questão de seleção. Muita gente inapta, que permanece na profissão apenas por contar com um cargo estável seria posta de lado, e gente que deixou o ofício, talvez se visse estimulado a retornar às salas de aula. 

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