TEORIA DOS CICLOS ECONÔMICOS E A CRISE ATUAL

por Fernando R.

 

Neste texto eu não vou tentar fornecer nem relacionar a questão dos ciclos econômicos e a crise atual de crédito nos EUA, como vários dos economistas e simpatizantes da teoria econômica tem procurado fazer. Isto é comum principalmente entre os liberais que seguem os preceitos da escola austríaca e a teoria do ciclo de Ludwig Von Mises. Na verdade o objetivo deste meu texto é expor as minhas dúvidas com relação a aplicabilidade da teoria dos ciclos para prever, antecipar e dar solução às crises econômicas.

Para os que não estão familiarizados com a teoria dos ciclos de Von Mises, vou tentar resumi-la para poder começar a discussão. Parte-se da idéia de que a crise é causada por uma baixa artificial das taxas de juro, realizada pelos órgãos que regulam esta questão, o que leva a um erro nos cálculos contábeis de investimentos. O grande problema da crises econômicas causadas pelo ciclo de aceleração é a quantidade de investimentos errados que são realizados, isto é, aqueles investimentos na produção de bens e serviços que não atendem aos desejos mais imediatos dos consumidores.

Estes investimentos só são possíveis porque uma taxa artificialmente baixa de juro leva os investidores a errarem nos cálculos de retorno sobre o total investido. Esta teoria é atraente para a compreensão do mecanismo gerador da crise, e leva a tentação de compreender todas as crises pelo mesmo motivo. O problema é saber quando a crise atinge seu ápice, e quando a bolha deixa de ser bolha. Elevações e reduções na taxa de juro são freqüentes, mas é difícil saber até onde se está alimentando um bolha e o momento em que ela irá explodir, a não ser quando já é tarde demais. Sem desmerecer a teoria dos ciclos de Mises, mas ela acaba funcionando como o exemplo de profecia auto-realizável.

O problema maior, no entanto, ocorre nas discussões sobre o ajuste. Mises era da opinião de que o melhor ajuste seria a falência dos negócios mal feitos, com a conseqüente queda no emprego e na renda, para que o retorno às condições econômicas saudáveis se desse o mais rapidamente possível. Esta teoria está em contraste, entretanto, com a previsão feita por John Maynard Keynes sobre o mecanismo gerador da crise.

Também de modo resumido, a teoria keynesiana diz que a crise é alimentada por uma redução na demanda pelos bens, e que isto ocorre porque mais pessoas decidem não consumir na expectativa da crise, seja porque teme dias piores, seja por espera preços melhores. Só que como ninguém sabe o momento em que os preços melhores ou os tempos melhores voltaram, a queda no consumo leva a um movimento em cadeia de piora do cenário econômico. Como a demanda caiu os investidores não investem, o nível do emprego cai, a renda diminui o que leva o consumo para baixo. Com a queda no consumo, isto leva mais empresas a não investirem, e algumas a fecharem, o que leva a uma redução maior da atividade econômica e, portanto, a um aprofundamento da crise.

A teoria keynesiana receita como saída da crise o estímulo a demanda, ou seja, um impulso para que as pessoas consumam, de modo que os investimentos sejam novamente rentáveis, gerando mais emprego e mais renda, realimentando o processo de crescimento econômico. O problema da teoria keynesiana, na minha opinião, é que ela também é um exemplo de teoria auto-realizável.

Ambas teorias dependem de dados empíricos impossíveis de se obter para poderem ser comprovadas. A teoria keynesiana depende das estimativas de demanda agregada, que é a demanda total por todos os bens por todos os consumidores num dado momento. A teoria de Von Mises depende dos dados contábeis das empresas para saber até onde o juro se expandiu além da taxa de desconto esperada para um dado momento, o que pelos próprios axiomas da teoria, dependeria do conhecimento da valoração de todos os agentes individuais da diferenças entre o presente e o futuro.

Isto não significa, entretanto, que as duas maneiras de se ver o mundo não estejam, de certa forma parcialmente corretas. Porque como não dá para fazer experimentos controláveis em economia, não podemos saber até onde as próprias teorias não influenciaram as tomadas de decisão dos investidores. Autores da escola monetarista, também chamada escola de Chicago, cujo maior expoente foi Milton Friedmam, entendia que a crise de 1929 poderia ter acabado ainda no começo dos anos 1930 caso o governo americano não tivesse aumentando a regulação sobre a atividade econômica, como, por exemplo, as exigências de depósitos por parte dos bancos.

O argumento keynesiano, no entanto, é de que o governo deveria ter estimulado a demanda mais rapidamente, para que o nível de atividade econômico não caísse tanto quanto caiu, de modo que a recuperação da crise teria sido mais rápida. O keynesianismo é moralmente repulsivo para muitas pessoas (incluindo eu mesmo) por conta de seu apela paternalista, e sua crença de que o governo é capaz de conduzir as crises desastrosas para um final feliz. O keynesianismo também aposta num estatismo muito grande, como obras públicas, empresas públicas, etc.

O liberalismo econômico clássico, ou neoclássico, por outro lado, é uma aposta confiante numa teoria que, na prática, carece de dados técnicos e baseia-se na intuição econômica. Não é por acaso que surgiu um keynesianismo liberal nos anos 1980, que foi levado a cabo por Ronald Reagan, mas tornou-se um febre sobretudo nos anos 1990, e que conduziu a crise contemporânea. Esta teoria, para qual não tenho nem mesmo um nome adequado, diz que uma maneira de tirar a economia da crise é através de uma redução dos impostos, o que, apesar de levar a uma queda de arrecadação, estimularia a economia de tal modo que compensaria a queda inicial da arrecadação com o crescimento da economia. Outra medida para este estímulo, é a redução das taxa de juro, o que incentiva os bancos a buscarem clientes na iniciativa privada ao invés de depender dos títulos governamentais para viver.

Mas aí entra a questão inicial, ou seja, minha resposta as minhas dúvidas sobre o que fazer. Até onde as teorias do ciclo podem oferecer uma resposta razoável e um plano de ação para combater a crise? Em minha opinião, a teoria do ciclo não oferece a resposta para esta questão porque o problema é, no fundo, outro. A economia entra em recessão por conta da leitura que fazemos de alguns indicadores, não por causa de um movimento real de contração. Explico-me. Os indicares econômicos baseiam-se numa mixórdia de teorias econômicas. O PIB, por exemplo, mede o valor adicionado à economia. Ele está "lastreado" na teoria do valor-trabalho, porque subentende que algo pode valer mais pela adição de trabalho. O minério de ferro vale menos que a barra de ferro, que vale menos que o aço estampado na lateral do seu carro por conta da adição de valor no processo de fabricação. Isto contraria a noção de valor utilidade.

Outro fato é que o PIB é muito menor que o tamanho total da economia. O que a gente sempre ilustra é o caso da construção civil. A construção de um imóvel aumenta o PIB. Sua venda não. Se a construção se deu num momento de alta no crédito imobiliário, como o atual, o PIB cresce mais, porque a diferença entre o matéria gasto para construir e a venda será maior. As transferências de renda também não contam na economia, porque não adicionam valor. No entanto, a desaceleração do PIB é uma variável empregada para estimar o crescimento ou decréscimo da economia.

Outra variável é a inflação. A inflação é tomada de preços índices, que se baseiam nos preços de uma determinada data. Se a demanda pelos bens se modifica, isto é visto como inflação. Funciona em alguns casos, mas não em outros, como na mudança de hábito de consumo. Um exemplo é o preço do petróleo, que flutua por fatores que nada tem haver com a desvalorização da moeda. O aumento da demanda por petróelo eleva os preços, sem que isto esteja relacionado ao aumento da emissão de moeda. Uma quebra de safra pode elevar os preços dos alimentos, sem que isto signifique que estamos num processo de expansão do crédito. Outros vários exemplo são possíveis.

Creio, portanto, que a crise deve ter as causas buscadas nos agentes promotores da solução. O governo americano, por exemplo, busca medidas para salvar credores insolventes, sendo que o próprio governo americano está, há muito tempo, numa situação permanente de insolvência. A redução do déficit, em qualquer governo de qualquer país, é a primeira medida necessária para a redução da possibilidade de haver crises. E a redução do déficit deve ser obtida por duas medidas, em duas pontas: corte de gastos, quando há esta possibilidade, e aumento de impostos. Um exemplo: o orçamento militar dos EUA é de 550 bilhões de dólares, enquanto o da Rússia é de 50 bilhões e o da China cerca de 80 bilhões. A distância que separa os três maiores orçamentos militares dá uma mostra de como os gastos militares nos EUA inflacionam o mercado mundial de armamentos, pesquisa e matéria prima. O gasto militar dos EUA deveria ser reduzido para um patamar mais próximo da realidade de países semelhantes, o que significaria uma redução do déficit.

No Brasil, apesar do crescimento da carga tributária, os gastos governamentais crescem a um ritmo mais elevado, de modo que o déficit tem sido constante e crescente. Podemos apontar milhares de caminhos para a redução de despesas no Estado brasileiro, mas o fato é que a conta que sobre é financiada, não cobrada diretamente dos cidadãos. Os gastos públicos inflacionam a economia, e motivam a formação de distorções. O conceito de taxa de juro pública, tal qual a selic, só é útil porque o maior tomador de empréstimos é o governo.

Governos que não tomassem empréstimos não seriam referencia para bancos. Suas planilhas de custo deveriam se adequar ao risco empresarial das diversas atividades. Empresas de petróleo com atividades no Iraque pagariam taxas de juro mais elevadas do que os produtores de sal, que por sua vez pagariam menos que os produtores de soja. Numa situação desta, as empresas seriam mais cuidadosas na expansão de seus negócios, e a economia poderia até crescer menos, mas seria muito mais constante do que é atualmente.

Os pacotes salvadores, portanto, devem estar vinculados a uma mudança de mentalidade dos governos, que devem aprender a fazer caixa para gastar, deixando o crédito como uma opção emergencial, remota e anormal, e não como rotina contábil diária. As hipotecas inadimplentes devem ser executadas, e o governo, case as compre, deve privatizar este ativo público como forma de saldar parte das próprias dívidas. O erro e a ganância devem ser punidos, mas deve-se esperar dos governos capacidade para corrigir também os próprios erros. Portanto, não há solução fácil ou barata para a crise. A verdade crise é a da mentalidade. Devemos voltar a pensar e agir com o presente, deixando o futuro para amanhã, literalmente.



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