COMO O SUBSÍDIO CRIA DISTORÇÕES NO MERCADO DE PRODUTOS AGRÍCOLAS

 por Fernando R.


Conforme o prometido no artigo anterior, volto a questão dos subsídios agrícolas e as distorções que ele cria. Para tanto, vou usar como referência um texto já um tanto velhinho, de 2000, sobre a produção brasileira de soja a partir do olhar americano. Quem quiser conferir o texto, é só clicar no link no final. Basicamente, os autores discutem a possibilidade de os agricultores americanos do Iowa competirem com os brasileiros do Mato Grosso.

Analisando os custos de produção, observa-se que os brasileiros levam vantagem no custo menor da semente, do trabalho, da maquinaria e levam desvantagem em outros custos, como fertilizantes, herbicidas e inseticidas. Além disso são computados outros custos nos quais os autores apontam o Brasil com vantagem, sem especificá-los. Quando são computados apenas estes custos, os agricultores americanos tornam-se mais competitivos que os brasileiros, principalmente pelo preço muito maior pago no Brasil pelos fertilizantes.

Se são computados os custos de transporte, a vantagem americana se amplia, já que o custo do transporte lá é significativa menor que aqui no Brasil, por conta dos modais utilizados, lá o hidroviário e ferroviário, aqui, predominantemente o rodoviário. Os autores ainda destacam que há possibilidades significativas de ganhos de eficiência nos custos de transporte nos EUA frente ao Brasil.

Apesar de todas estas vantagens, os americanos precisam de um subsídio de US$ 1,50 por bushel para serem competitivos. E a produção de soja deles cresce em ritmo inferior a brasileira. Como explicar este aparente paradoxo?

A causa, segundo o texto está nos custos da terra, que são muito mais elevados lá que aqui no Brasil. Mas, porque os preços da terra são tão mais elevados nos EUA que aqui no Brasil? A resposta está no subsídio. O subsídio compensa para os agricultores americanos o custo mais elevado da terra, e permite-os, inclusive, vender a soja a um preço inferior ao custo de produção.

Caso este subsídio não existisse, o agricultor americano teria problemas, porque seu custo de produção seria superior a renda auferida no mercado. O que não é obvio, é que esta situação levaria a uma redução na produção americana de soja, que teria, de um modo geral, dois efeitos sobre o mercado: o primeiro seria a diminuição na oferta de grãos no mercado mundial e a desvalorização da terra. O primeiro efeito levaria, no curto prazo, a uma elevação no preço do grão de soja; o segundo efeito a uma redução nos custos de produção.

O subsídio consegue, numa tacada só, elevar o custo da terra e baixar o preço do grão, funcionando como um estímulo por mais subsídios ainda, o que teria como única conseqüência ampliar ainda mais a oferta de grãos e valorizar ainda mais a terra. O efeito criado pelo subsídio é fazer com que uma produção que poderia ser competitiva torne-se economicamente inviável.

O resultado das políticas agrícolas americanas mais visível é a redução do padrão de vida dos americanos, que tem que bancar um alto custo anual em subsídios agrícolas, para sustentar agricultores que, na ausência destes poderiam ser auto-sustentáveis.

 

E A CRISE DOS ALIMENTOS COM ISSO?

 

O aumento na demanda por alimentos, que tem sido superior a oferta e por isso tem puxado os preços para cima, é uma excelente oportunidade para se cortar os subsídios agrícolas. A razão é muito simples: os agricultores não teriam uma aumento imediato da própria renda, aproveitando o bom momento da agricultura, o que possivelmente dificultaria uma elevação mais acelerada da produção: por outro lado, os preços persistiram elevados por mais tempo, permitindo uma adequação do preço da terra a realidade do mercado, e um ajuste mundial na produção de alimentos.

Quando o preço dos alimentos voltasse a cair, ele seria acompanhado por uma queda nos custos da terra, ou pelo menos não ocorreria numa situação de valorização fundiária, o que permitiria aos agricultores ajustar os custos de produção ao preço de mercado, sem grandes perdas para os produtores, tampouco para os bancos e os proprietários de terra.

Abaixo segue o link do texto mencionado no início.

 

http://www.extension.iastate.edu/agdm/articles/baumel/BaumelDec00.htm



Novos endereços, o Yahoo! que você conhece. Crie um email novo com a sua cara @ymail.com ou @rocketmail.com.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ELEITOR BRASILEIRO E O EFEITO MÚCIO

O PROBLEMA DO DÉFICIT HABITACIONAL - PARTE 2

Sobre mobilidade urbana