SÓ O SUPÉRFLUO É ESSENCIAL

Por Fernando Ferro
Algumas pessoas estavam debochando porque nestes dias de quarentena uma grave crise econômica se abateu sobre o país. A razão é que a economia entrou em colapso quando as pessoas passaram a consumir somente o que é essencial. Ou seja: deixando de lado tudo aquilo que é considerado “supérfluo”, nossa sociedade entra em colapso. Pra ter uma ideia do tamanho do buraco, cerca de 50% das famílias já relataram perda de renda neste período de 3 a quatro semanas de quarentena.
Neste meio tempo, vale uma reflexão: o que é essencial? O governo, por decreto, baixou uma resolução dizendo quais serviços poderiam parar e quais deveriam permanecer abertos. Postos de combustível, farmácias e mercados deveriam permanecer abertos, enquanto barbearias, shopping Center, academias de ginástica e lojas de roupa deveriam ser fechados. Uma lista mais extensa de serviços compõem a lista do que é ou não essencial. Do que é ou não permitido. Entre as atividades cortadas, estão inclusive passeios no parque, ou nas praias.
Muitas dessas atividades, inclusive, contrariam o bom senso. Sabe-se, por exemplo, que os vírus da classe corona têm baixa tolerância ao calor e que a exposição ao sol, por sua capacidade de ajudar o corpo a produzir vitamina D, é benéfica à saúde. Então, à parte as aglomerações, seria até positivo que as pessoas frequentassem espaços abertos, ao invés de ficarem trancafiadas em casa apenas.
Mas o fato é que o breve período de quarentena já deixou sua marca: a atividade varejista já havia registrado queda de mais de 70% em faturamento, com reflexos óbvios na indústria; os serviços não ficaram atrás. O impacto na renda das famílias é obvio porque a maioria dos trabalhadores depende do setor informal ou então conta própria, e muitos ainda são empreendedores. Entre as empresas, sobretudo as pequenas, muitas já recorreram a demissões, e mesmo as grandes estão com pessoal ocioso. O governo já sofre com a queda de arrecadação e Minas Gerais já disse que não terá como manter os salários de servidores em dia no mês de abril. Outros Estados em breve terão o mesmo dilema pela frente, assim como municípios e depois a União.
Então, entra a questão, o que é essencial? Resolvida a questão do abrigo noturno e em dias de chuva, que inclusive pode ser temporário e rotativo, da alimentação minimamente nutritiva, de alguma proteção contra predadores, inclusive outros humanos, e da satisfação sexual e reprodutiva, todas as demais necessidades humanas são supérfluas. E dito isso, pode-se dizer que todas as características que distinguem a vida humana da dos outros animais são supérfluas. E assim, é fácil concluir que a única coisa essencial para a vida humana é aquilo que chamamos de supérfluo.
Ou seja, sem consumir cultura, não somos humanos. Como diriam os Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.” E reduzindo nosso consumo apenas para o “essencial” corremos o risco de gradativamente rompermos o tecido social, uma vez que a imensa maioria das atividades humanas são essencialmente supérfluas. O texto que eu escrevo agora e você lê, a internet que permite sua leitura, a escola que permitiu sua alfabetização, os livros que a precederam, os sons que formam sua linguagem, o fogo que cozinha seu alimento, tudo isso é objeto da cultura, e nada mais que o consumo supérfluo de bens e recursos, que em ultima instância poderia ser reduzido para formas mais elementares e sustentáveis de vida.
Há maneiras mais práticas de passar genes adiante, como o próprio Corona Vírus tem demonstrado, sem a necessidade de cultura, civilizações, cidades. A nossa não é a melhor, nem a mais prática. Mas é a forma humana de fazê-lo. E destruir o tecido social não é uma solução. O supérfluo, no fundo, é a única coisa necessária e essencial para nos tornar humanos. Sem isso, nada somos.
Dos mais de 7 bilhões de seres humanos no planeta, pouco mais de alguns milhões vivem de atividades essenciais, como plantar batatas e criar galinhas. A imensa maioria produz objetos culturais. E se essas atividades deixarem de ser consumidas, e essas pessoas não puderem consumir, assistiremos o colapso da nossa sociedade. Um retorno ao feudalismo. Ou talvez algo até pior. Portanto, não despreze o supérfluo. Lembre-se. Só o supérfluo é essencial.

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