A CAMPANHA ANTIDEMOCRÁTICA DOS PARTIDOS NA ELEIÇÃO


Por Fernando Raphael Ferro       
A atual campanha política, conforme delineada nos últimos dias antes da apresentação final dos candidatos, mostra uma movimentação profundamente antidemocrática dos partidos políticos na definição das alianças pelo poder. Grosso modo, os caciques dos 35 partidos viraram as costas para a vontade popular na hora de definirem suas posições em relação aos candidatos à presidência.
Treze é o total de candidatos apresentados, dos quais, os três principais nomes foram absolutamente relegados pelos principais partidos da república. Em que pese os méritos, e sobretudo deméritos dos ponteiros, a movimentação partidária escancarou que atualmente os políticos eleitos e líderes partidários vivem à revelia da vontade popular. O candidato Ciro Gomes (PDT), em recente entrevista à Globo News comentou esse fato, da completa alienação do congresso nacional em relação à vontade popular.
Se na eleição de 2010 Lula indicou um poste para substituí-lo, à revelia de seu próprio partido, e pela força de sua personalidade carismática conseguiu emplacar a pior de todas as presidentes da república, atualmente os partidos do chamado centrão indicam seu próprio poste, o Senhor Geraldo Alckmin, que além de grande rejeição popular apresenta baixos índices de intenção de voto a menos de 90 dias do pleito decisivo do primeiro turno.
Por outro lado, o líder das pesquisas Jair Bolsonaro, do PSL, conseguiu apenas a aliança do nanico PRTB, que entra com o vice na chapa quase puro sangue de Bolsonaro. Marina Silva, vice-líder nas pesquisas, também teve que se contentar com a aproximação com o Partido Verde, e da mesma forma o terceiro colocado Ciro Gomes, do PDT, que acabou lançando uma chapa puro sangue. A razão do desprezo do status quo ante estes candidatos se deve a sua postura relativamente independente, imprevisível e incontrolável, fazendo com que se contentem com a previsibilidade do picolé de chuchu Geraldo Alckmin ou então com o presidiário Lula do PT e seus aliados xiitas. Apesar disso, Lula ao menos desponta nas pesquisas em vários cenários, enquanto Geraldo era parte da insignificância dos nanicos.
Apesar de seu papel irrelevante perante a vontade popular, o establishment aposta fortemente no tempo de TV como ferramenta decisiva, assim como no bolão a ser dividido do bilionário fundo partidário para empurrar sua opção goela abaixo do eleitor. Alckmin disporá de mais de 5 minutos diários de TV. Os ponteiros somados não chegam a um minuto.
A estratégia tem muitas possibilidades de ser um tiro no pé da política tradicional, tendo em vista que, na inelegibilidade de Lula, o cenário mais provável é de um segundo turno entre os três ponteiros, com maiores probabilidades de que seja uma disputa entre Marina e Bolsonaro no segundo turno. Além disso, a grande exposição em rede nacional da aliança espúria poderá aumentar ainda mais a rejeição a Alckmin.
Obviamente as condições de negociar e barganhar junto aos candidatos no segundo turno se tornarão ainda mais reduzidas, sobretudo se a população conseguir varrer para a lata de lixo da história algumas das lideranças partidárias que ora formam o centrão em detrimento da vontade popular. Desta forma, teríamos uma verdadeira mudança no centro de gravidade da política do país. Esta mudança, aliás, já está em vias de ocorrer, já que em diversos Estados já não é relevante a polarização PT/PSDB vista nas últimas 4 corridas presidenciais, com o também virtual desaparecimento das candidaturas viáveis do MDB.
Além disso, há uma ameaça óbvia ao congresso na próxima legislatura: caso seja alçado ao poder um candidato com grande legitimidade popular, mas sem apoio do congresso, o país poderá ser jogado num impasse, que resultará num descrédito ainda maior do parlamento e suas lideranças. E se na próxima legislatura, de 2022, o voto distrital misto tornar-se a regra, poderemos ver nomes tradicionais da política caindo em desgraça. Esta eleição promete fortes emoções, principalmente de ódio contra o status quo, que virou as costas à vontade popular.

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