LEMBRANÇAS DE UM PASSADO CADA VEZ MAIS DISTANTE

É comum que os blogs da internet sejam usados como um meio de veicular sentimentos pessoais e contar coisas sobre a vida de seus autores. Talvez pela aproximação de minha 27ª volta ao redor da estrela que jaz ao centro da órbita do nosso planeta, começo a ter recordações de um passado cada vez mais distante, o meu próprio passado, minha infância e adolescência.
Estas coisas ficam ainda mais evidentes quando eu comparo a aurora de minha vida com a de minha filha, que hoje já tem nove anos. Quando eu tinha nove anos, eu vim morar em Curitiba. Posso dizer que a cidade, apesar de já ser grande, era muito diferente do que é hoje. Havia muitas ruas sem asfalto, principalmente perto de onde eu morava, no bairro do São Braz, próximo a Santa Felicidade.
Eu, com a idade de minha filha, ia para a escola de vã escolar, assim como ela. Mas só no primeiro ano que estudei aqui, que foi 1992, e eu cursava a 3ª série. Em 1993, eu já ia para a escola de ônibus. Sozinho, diga-se de passagem. Eu também ia sozinho para a catequese, e a igreja fica a uns 1500 metros de minha casa, assim como hoje. Eu também, igual a ela, morava num apartamento. Só que não num prédio individual, e sim num condomínio. Assim como ela, eu ia nadar no clube, só que eu ia sozinho, todas as tardes, de bicicleta com alguns colegas da escola, às vezes com a minha mãe, ou ainda com a minha tia. Quando eu era criança, eu nunca tive medo de ser atropelado. Nem de ser assaltado. Lembro que minha mãe me mandava sozinho à padaria. Na verdade, apesar de nós termos carro, não eram todos meus amigos que tinham carro em casa.
Não preciso nem dizer que eu não tinha nem computador, nem internet em casa. Ter telefone já era sinônimo suficiente de status, num condomínio residencial de classe média baixa. Também tínhamos uma empregada, até eu completar uns 11 anos. Ela morava em casa com a gente, e mesmo não sendo ricos, meus pais podiam pagá-la. Lembro que mesmo morando na cidade, à noite, a gente via estrelas. Um som que às vezes me vem à lembrança é o dos sapos coaxando. Quando chovia no verão, brincávamos na chuva. Entre as maldades de crianças, eu lembro que nós caçávamos sapos.
Todas estas cosias que de que eu lembrei, são coisas que hoje minha filha não faz sozinha. Eu moro num bairro parecido com que eu morava quando era criança, apesar de ser do outro lado da cidade. Ele também tem uma igreja perto de casa, uma rua mais movimentada, uma padaria, um mercadinho. Mas não tenho coragem de deixar minha filha andar nas ruas, que estão sempre cheias de carros, muitos em velocidade muito superior aos 40 km/h que as placas dizem que eles deveriam estar.
Não lembro tê-la deixado brincar na chuva. Agora, há poucas semanas, estamos deixando-a voltar sozinha da catequese. Mas nem cogito a hipótese de deixá-la ir sozinha no clube, apesar da distância ser similar ao clube de minha infância. Eu mesmo a levo para nadar duas a três vezes por semana.
Olhando assim para trás, eu vejo o quanto, em vários aspectos, minha vida é parecida com a dos meus pais. Na verdade, minha vida é mais parecida com a do meu pai, porque ele tinha mais ou menos a mesma idade que eu tenho hoje nesta época. Mas meu pai não era funcionário público como eu, e (talvez) por isso não tinha tempo para me levar no clube à tarde. E eu, apesar de ter um carro bem mais novo, inclusive comparativamente, que o que eles tinham naquela época (eles tinham um fusca 82, vermelho, em 1992 e eu tenho um corsa 2004 em 2009), eu não posso pagar por uma empregada todos os dias da semana. Moro num bairro inteiramente asfaltado, mas muito mais inseguro do que antigamente.
Naquela época, em Curitiba, havia garotos problema, dos quais deveríamos nos manter afastados. Hoje há gangues. Naquela época, tínhamos medo de ficar para recuperação. Hoje este medo não existe. Morríamos de medo da diretora; hoje elas posam de amigas dos alunos, muitas vezes contra os professores. Sinto que apesar de muitas semelhanças, e do pouco tempo que separa minha infância da dela (17 anos e pouco), o nosso mundo, nossa cidade pelo menos, mudou muito. E sem querer parecer um velho precoce e pessimista, me parece que o mundo mudou para pior.
Pergunto-me, agora que chego perto dos trinta, o que será do mundo, do bairro, da vida, quando eu fizer 47 anos? Quando estas lembranças estiverem ainda mais distantes, e talvez minha neta viva numa casa parecida com a que vivo hoje, que não difere muito da que meus pais viviam? Sinceramente, fico preocupado com o futuro.

O FUTURO QUE EU QUERIA
Eu sinceramente gostaria de dizer, daqui a 20 anos, que mundo melhorou muito. Ou melhor, dane-se o mundo; que minha cidade melhorou muito. Que as crianças de sete, oito e nove anos podem ir sozinhas, a pé ou de bicicleta, ou ainda de patins ou skate para a escola e para o clube. Que podem nadar felizes e brincar, sob a custódia de um guarda-vidas, sem a necessidade de pais próximos vigilantes. Eu espero viver num mundo em que não haja tantos carros. Ou um mundo em que os carros não sejam mais tão necessários. Que à padaria da esquina e ao mercadinho se juntem muitas outras lojinhas de conveniências, para que a gente possa fazer nossas compras a pé.
Que estar com saúde, disposição, e escrevendo, talvez não mais no blog, mas nos meios que estiverem disponíveis. Eu quero que o futuro, daqui a 20 anos, seja mais cheio de leitores, com mais livros, mais bibliotecas, mais pessoas interessantes. E que os carros sejam admirados, obras de arte, restritas aos shows e aos eventos esportivos, que serão limpos, organizados, e acessíveis a todos. Eu quero um futuro assim. Espero que todos você estejam vivos lá para verem uma cidade e um país melhor para todos nós.

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