A Sociedade Aberta

A expressão Sociedade Aberta foi utilizada por Karl Popper para descrever as sociedades democráticas que tem por característica principal o projeto civilizacional que reconhece o indivíduo como valor supremo a ser defendido. É a sociedade do individualismo. Individualismo, correntemente, tem dois significados. Por um lado refere-se aquilo que pertence ou que é próprio de um indivíduo. O individualismo assim tomado é a “ideologia” que defende o direito a autenticidade de cada um. Mas o individualismo também pode ser tomado pelo significado de egoísmo. E é nesse segundo sentido que seus críticos costumam empregá-los.
A este mesmo projeto de sociedade aberta referiu-se Hayek como a Grande Sociedade. Essa Grande Sociedade seria aquela em que prevaleceria o império das regras gerais, em oposição às regras discricionárias. Essencialmente não há qualquer diferença entre a sociedade aberta de Popper e a Grande Sociedade de Hayek. Ambas pressupõem a imparcialidade das leis e o individualismo como valores supremos.
Este ideal, que alguns chamam simplesmente por ideal democrático, foi desenvolvido ao longo dos milênios conjuntamente com a sociedade ocidental. A república de Atenas, na época de Péricles proclamava em sua constituição os direitos básicos dos indivíduos da república e sua distinção básica em relação à Esparta. A alternativa, portanto, à sociedade aberta é a sociedade tribal. A sociedade fechada, onde todas as ações são pensadas tendo por valor supremo a coletividade identificada como um ideal nacional.
O interessante deste método para explicar a história, é que, por apoiar-se entre dois extremos, ambos em constante construção, pode-se utilizá-lo como um fio condutor explicativo na história. Além disso, essa idéia ajuda a compreender o sucesso do apelo de alguns “movimentos sociais” entre os jovens, e o fervor que é despertado pelo nacionalismo, mesmo em tempos modernos.
Observa-se que a construção da sociedade ocidental é possível pelo fato de que na Europa, após o império romano, todas as tentativas de se construir um império unificado fracassaram. Isso graças as oposição constante entre os movimentos da sociedade aberta vs. os das sociedades tribais. Essas idéias permitem compreender o papel ambíguo da igreja e do estado, que ora aparecem como defensores da liberdade, ora como seus inimigos.
O Brasil, dentro de seu projeto tribal de construção de uma nacionalidade, é posto diariamente em contraste com sua composição extremamente oposta a de uma sociedade fechada. Composto de várias etnias, nacionalidades e variações lingüísticas que alguns diriam dialetais, o país volta-se em alguns momentos para um “projeto nacional” que procura distanciá-lo de sua origem ocidental. Em outros, abre-se às influências estrangeiras, permitindo a reentrada dos valores ocidentais.
Essa distinção entre sociedade aberta e sociedade fechada e pouco conhecida no meio acadêmico. Isso, por tabela, significa que ela também é pouco conhecida entre os jovens. Mas o interessante disso tudo é que os jovens em geral são os mais beneficiados por uma sociedade aberta. Isso porque a sociedade aberta deve permitir, com o devido respeito das regras comuns, que os diferentes indivíduos se reúnam em grupos de acordo com suas afinidades, seja clubes, partidos, sindicatos, famílias, ONG’s, empresas, de modo a atingirem seus objetivos. Já numa sociedade fechada não resta espaço para a discordância do projeto nacional, tribal.
Em suma, numa sociedade aberta os jovens podem encontrar a tribo com a qual desejem se identificar e reivindicar para si reconhecimento e legitimidade. Numa sociedade fechada, que é defendida por muitos jovens hoje em dia, só resta espaço para seguir as diretrizes impostas pela autoridade central. Numa interpretação oposta a que os esquerdistas e marxistas procuram dar, a sociedade aberta é progressista enquanto que os dogmas esquerdistas são conservadores. Enquanto a sociedade aberta busca mudar o que há de mais característico na espécie humana, que é pertencer a uma tribo pelo fato de ter nela nascido, a sociedade fechada busca, no máximo, unificar toda a humanidade numa única tribo, comandada por um poder central.
O debate entre os nacionalismos modernos e o globalismo inverte, de certo modo, as concepções tradicionais. O que se esconde por traz do projeto global é o sonho de uma sociedade fechada, enquanto que os nacionalismos modernos acabam por representar o direito de escolha entre viver nesta ou naquela sociedade, que no fundo, partilham os mesmos valores básicos, individualismo e a imparcialidade. Noutros artigos procurarei aprofundar essas noções.

Comentários

evelyn disse…
Legal Fernando. Tenho o "Sociedade Aberta e seus inimigos" mas não o li até hoje. A noção de sociedade aberta e fechada (assim como da religião aberta e fechada) tem uma exposição brilhante por parte de Henry Bergson em 'as duas faces da moral e religião', aonde ele associa a humanidade à sociedade aberta e define as 'sociedades' como sendo todas 'fechadas', pois enquanto as últimas são orientadas por uma moral social que visa a sua preservação coletiva, a primeira é uma moral criadora que tem como fundamento a pessoa e como fim a humanidade. Assim, a sociedade aberta seria obra dos grandes heróis morais de nossa História, a qual não se explica pela obrigação social.
evelyn disse…
Legal Fernando. Tenho o "Sociedade Aberta e seus inimigos" mas não o li até hoje. A noção de sociedade aberta e fechada (assim como da religião aberta e fechada) tem uma exposição brilhante por parte de Henry Bergson em 'as duas faces da moral e religião', aonde ele associa a humanidade à sociedade aberta e define as 'sociedades' como sendo todas 'fechadas', pois enquanto as últimas são orientadas por uma moral social que visa a sua preservação coletiva, a primeira é uma moral criadora que tem como fundamento a pessoa e como fim a humanidade. Assim, a sociedade aberta seria obra dos grandes heróis morais de nossa História, a qual não se explica pela obrigação social.
Fernando Ferro disse…
Há um fato interessante em seu comentário. A noção de tempo empregada pelos economistas austríacos possui um justificativa baseada, entre outros pontos, na noção de tempo vital de Bergson. Creio que é em a Evolução Criadora. O profº Ubiratan Ioro, do Rio, se não me engado PUC-RJ, a usa abertamente como definição. Provavelmente há um explicação para esse paralelo entre uma coisa e outra.
Outra coisa interessante a falar, é que a ideia de que a história é obra de grandes heróis morais, pode ser exemplificada pelo modelo de "interpretação" da história empregado pelo Paul Johnson, não apenas em Tempos Modernos, mas também em História dos Judeus e História do Cristianismo, que são os livros dele que já li.
evelyn disse…
a 'evolução criadora' é considerada espécie de primeira parte de 'as duas faces da moral e da religião' (esta sob a lente da antropologia e a outra da biologia). que os teóricos austríacos tenham usado a noção de tempo vital de Bergson para mim é novidade e até fiquei bastante curiosa em pesquisar o assunto!
e é verdade, se eu não me engano é Paul Johnson quem diz serem os acontecimentos de grande relevância na história mais determinados por um grupo seleto do que pela colatividade maciça.

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