CÁLCULO ATUARIAL: O PROBLEMA DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA?
Por
Fernando Raphael Ferro
Assim,
pode-se dizer que a previdência, no fundo, é uma aposta, com a diferença de ser
bem calculada. A previdência pública, então, é uma aposta em que os poucos
sobreviventes do futuro tentarão lucrar às custas dos que morrerem antes desse
futuro se concretizar. A previdência privada torna-se um pouco mais complicada
porque adiciona a esta equação uma outra variável, o lucro do administrador
previdenciário.
A
atual previdência brasileira, para começarmos a entender a brincadeira, é uma
armadilha irresponsável criada a partir de diversos conceitos equivocados. Como
quem maneja as leis que criam e administram estas coisas geralmente não são
especialistas na área, e sim políticos e como a ideia de aposentadoria é vista
como um “direito social”, um “benefício”, um bônus do estado de bem estar
social, muita coisas estão fundidas dentro da previdência pública.
Primeiramente,
o INSS abriga algumas coisas que são muito diferentes: seguro social, que pago
a inválidos e doentes crônicos na forma de prestações continuadas; pensões
vitalícias para contribuintes do regime de trabalho CLT; benefícios continuados
para idosos que nunca contribuíram ou tiveram contribuição por tempo
insuficiente, tanto no regime trabalho urbano como rural; pensões vitalícias
para viúvas (os) e órfãos dos contribuintes do regime CLT. Além disso, sob o
mesmo orçamento, encontra-se também a previdência dos servidores públicos
federais, que não segue as mesmas regras da CLT, mas partilha do mesmo fundo de
recursos.
Essa
confusão existe porque no Brasil entende-se a aposentadoria como um benefício
social, e qualquer um que a receba é um beneficiário. Na verdade, este conceito
é errado. A aposentadoria, ou previdência, é o resultado de uma poupança
realizada ao longo da vida laboral para que seja desfrutada após o término da
vida economicamente ativa. Os demais benefícios pagos a título de
aposentadoria, que não implicaram contribuição, não deveriam receber este nome
nem participar do mesmo fundo.
Esta
visão “social” da aposentadoria é o que permitiu, por exemplo, distorções e
subsídios cruzados existentes. Exemplifico: mulheres se aposentam mais cedo,
apesar da sua expectativa de vida ser superior e dos anos de trabalho ser
inferiores, tendo em vista os afastamentos em decorrência de licenças
maternidade. Outro, a pensão paga a viúvas(os) e órfãos, que independe do tempo
de contribuição do falecido, tampouco do total acumulado.
Uma
visão puramente técnica da aposentadoria consideraria apenas o tempo de
contribuição e a expectativa de vida de cada grupo para calcular o benefício
esperado. Assim, vou mostrar o caso de um homem que começa a trabalhar aos 21
anos. Vou desconsiderar a inflação no cálculo e capitalizar o saldo acumulado a
um juro de 4% ao ano, o que já desconta a inflação. Notem que estou sendo bem
generoso na capitalização do saldo.
Este cidadão irá receber R$ 800,00
até os 23 anos. Entre os 24 e 25, ele passa a receber R$ 1200,00. Aos 25 R$
1500,00. Entre os 27 e os 29, R$ 1800,00. Seu salário aumenta aos 30 para R$
2.500,00 onde permanece até os 36 anos. Aos 37, nova promoção e ele passa a
receber R$ 3500,00, até os 43. Dos 44 aos 50 seu salário vai a R$ 4000,00, que
é o máximo que ele atinge durante a vida produtiva. Dos 51 até os 56 seu
salário decai para R$ 3500,00, e dos 57 até a aposentadoria aos 65 ele receberá
R$ 3000,00. Considerando este histórico de vida e uma contribuição total de 22%
do salário, entre pessoal e patronal, com uma capitalização de 4% ao ano, este
individuo terá acumulado ao final de sua vida economicamente ativa o montante
de R$ 826.489,22.
Sua
expectativa de vida, aos 65 anos é, de acordo com o IBGE, de 18,3 anos, cerca
de 224 meses. Com isso seria possível receber uma aposentadoria de R$ 3.689,68
caso a duração de sua vida seja de exatamente 224 meses. Considerando ainda a
atuação dos juros, ele ainda teria uma pequena folga de alguns meses para
retiradas mensais caso ultrapassasse esta idade limite.
Caso
o indivíduo fosse uma mulher, que nunca tenha tido filhos, sua expectativa de
vida ao se aposentar seria de 236 meses. Com isso, suas retiradas mensais
poderiam ser de no máximo R$ 3.502,68, para que ela tivesse este benefício até
o fim de sua vida. Caso ela tenha tido dois filhos entre os 30 e 35 anos, seu
benefício máximo deveria ser de R$ 3.397,60, a menos que alguém continuasse
contribuindo para ela (e não estou descontando o total pago em licenças do
total acumulado). O fato e que uma mulher, para poder igualar o salário de um
homem pelo total acumulado, deveria trabalhar no mínimo 14 meses a mais para
acumular a mesma quantia.
Este
é o custo de se viver mais. Obviamente, a expectativa de vida é uma referência,
portanto, os fundos previdenciários deveriam ser geridos com mais cautela, de
modo a haver sobras para cobrir as despesas daqueles que vivem mais, sem
depender do dinheiro daqueles que viveram menos. Mas o fato é que a instituição
de idades mínimas diferenciadas, favorecendo os grupos populacionais que vivem
mais tempo não faz qualquer sentido do ponto de vista lógico, econômico ou
financeiro.
Algo
interessante a se destacar é o seguinte: em ambos os casos, o “salário” da
aposentadoria seria superior ao último salário recebido. No caso masculino,
seria 22,9% superior. No feminino, seria 19% superior para mulheres sem filhos
e 13% superior para mulheres com 2 filhos. Nota-se também o seguinte. Em nossa
estimativa, o benefício cessa quando da morte do contribuinte.
Se
imaginarmos um aposentado do setor público, que inicia sua carreira ganhando
relativamente pouco, mas se aposenta com o maior salário de sua vida, e em
muitos casos conserva este salário como a referência para sua aposentadoria,
veremos que o absurdo previdenciário é ainda maior, ainda mais tomando em conta
a referência de 30 e 35 anos como tempo de contribuição. O exemplo por mim
calculado acima era de um homem que começou a trabalhar aos 21 anos e manteve
suas atividades laborativas, de modo ininterrupto, até os 65 anos. Isso
significa 45 anos de contribuição.
Tivesse ele se aposentado aos 55 anos (35 de
contribuição) recebendo como referência o último salário o resultado seria o
seguinte: fundo acumulado de R$ 471.362,38, salário de R$ 3.500,00. Expectativa
de vida de 285 meses (23 anos). Duração do fundo caso recebesse o último
salário: 11 anos ou 134 meses. Ou seja, durante 151 meses ou pouco mais de 12
anos e meio de vida este cidadão representaria um déficit para a previdência.
Outras pessoas deveriam bancar seu “benefício”.
Caso
ele recebesse um salário proporcional a sua expectativa de vida e ao fundo
acumulado, o valor ficaria em R$ 1.650,43, uma queda de 45% em relação ao
último salário e de 56% em relação à previdência que ele poderia receber caso
trabalhasse até os 65 anos. Obviamente, haveria um momento ótimo para se
aposentar, quando o valor do último salário recebido e da aposentadoria se
tornasse igual ou parecido. No caso deste cidadão hipotético, este tempo ótimo
ocorreria antes dos 65 anos, mas depois dos 55.
No
caso brasileiro atual, o grande problema são as pensões pagas a viúvas e
órfãos. Isso porque estes benefícios não deveriam vir, por tempo indeterminado,
do fundo previdenciário. Ao contrário, deveriam ser cobertos por um seguro de
vida. E o valor do seguro, depois de um mínimo obrigatório, deveria poder ser
contratado a parte pelo segurado. Assim, essas “pensões” sairiam do fundo
previdenciário.
Outro
problema é a previdência do setor público. Ela é completamente caótica. Alguns
estados que haviam formado fundos previdenciários acabaram com seu valor,
tornando esta despesa parte da despesa ordinária do orçamento. Além disso, os
funcionário públicos, via de regra, se aposentam tendo o último salário como
referência e, além disso, recebem os mesmos aumentos e promoções do pessoal
ativo que exerce a mesma função que eles exerceram. Com isso, a despesa com
pagamento de aposentadorias é muito superior à contribuição total efetiva. Além
disso, há ainda a mesma regra para pagamento de pensões a viúvos(as) e órfãos.
Estes
“benefícios” são, obviamente, concentradores de renda. Hoje a população mais
idosa é muito mais rica que a população mais nova. Para tanto podemos usar como
ilustração os dados da receita federal dos declarantes de imposto
de renda. Os mais velhos (acima dos 50 anos) apesar de ser um
grupo menos numeroso acumulam em termos de renda e patrimônio um montante
superior ao das populações mais jovens. A princípio, não há mal nenhum nisso,
sobretudo em relação ao patrimônio, que leva uma vida toda para ser construído.
Mas no que diz respeito à renda, nota-se que os jovens de hoje estão
trabalhando para custear uma previdência que não foi capitalizada no passado. E
estes idosos recebem uma aposentadoria inflacionada em relação à própria
contribuição.
Esta
situação tem uma implicação para o país também. O Brasil carece de capital. É
historicamente um país de juros altos. A razão é a baixa taxa de poupança. A
previdência poderia ser a poupança mais importante do país, fornecendo fundos
para financiar a infraestrutura, indústria e agricultura. Os trabalhadores
tornar-se-iam sócios do crescimento do país. Hoje ela é um buraco, que drena
recursos públicos que poderiam ser utilizados para a construção da infraestrutura.
Como
sabemos, a capitalização é sempre a forma mais inteligente de crescer. R$ 1,00
nas mãos do governo, se bem utilizados, é apenas R$ 1,00. Nas mãos de um banco,
pode ser capitalizado em até 11 vezes. Isso significa que um fundo
previdenciário de R$ 1 bilhão poderia financiar até R$ 11 bilhões em projetos
de infraestrutura, indústria e agricultura. Só que estes projetos, obviamente,
geram retornos, pagamentos de juros, dividendos, além do próprio crescimento da
economia. Com isso, em pouco tempo o dinheiro multiplicar-se-ia ainda mais.
Assim o capitalismo agiu em todo o mundo.
No
Brasil ainda fazemos infraestrutura exclusivamente com dinheiro do tesouro.
Dinheiro esse cada vez mais escasso. E a previdência, que num país ainda jovem
como o nosso deveria ser uma alavanca para o desenvolvimento, torna-se um
entrave ao crescimento.
Para concluir, a ideia deste texto não
propor uma reforma previdenciária diferente. Isso é praticamente inviável no
cenário político atual. O que gostaria de fazer é mostrar a todos que, no
fundo, a única forma de garantir a própria aposentadoria é se prevenindo individualmente.
O modelo atual, mais cedo ou mais tarde irá mudar. Aumentar o tempo de
contribuição, alterar as regras cessão de benefícios, etc, são todas medidas paliativas
para um desastre anunciado. Enquanto a previdência não for capitalista, o
tesouro irá financiá-la com o dinheiro arrancado dos contribuintes via
impostos.
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