JOGOS VORAZES E A METÁFORA POLÍTICA
Por
Fernando Raphael Ferro de Lima
No
entanto, o filme é melhor do que parece pelo título, com um desenrolar político
como tema de fundo. A história se passa numa nação chamada Panem, num futuro
pós-moderno, pós-apocalíptico, em que a Capital domina por meio de uma cruel
tirania 12 distritos, dos quais tira tudo que necessita. Em que pese a riqueza
e tecnologia da capital, com seu estilo de vida luxuoso, os 12 distritos vivem
na miséria.
O
enredo em si é meio bocó, com a história de uma garota e um rapaz que são
obrigados a participar dos jogos vorazes, em que apenas um pode sair vencedor,
que ocorre anualmente. No primeiro filme, os jogos estão na 74ª edição. O
vencedor torna-se um garoto propaganda da capital. A simbologia dos jogos é que
eles foram criados para apaziguar o sentimento de vingança dos distritos, que
haviam se rebelado contra a Capital e perdido a guerra há exatos 74 anos. O 13º
distrito havia sido varrido da terra.
O
segundo filme e o terceiro filme, que fica dividido em duas partes, dão
sequencia a história, que contém todos os elementos para agradar o público
adolescente: cenas de ação, romantismo, e muita pirotecnia tecnológica. Mas o
ponto que quero discutir é o da metáfora pela luta pelo poder.
No
último filme, que é a parte 2 do terceiro livro, pelo que entendi, o 13º
distrito consegue incitar a revolta em todos os outros 12 distritos e marchar
em direção à capital. A promessa da “presidente” dos rebeldes é de que assim
que conquistado o poder serão realizadas eleições livres, para por fim a
ditadura do Presidente Snow.
Algumas cenas do final são
muito interessantes: Snow determina que todos os habitantes da capital sitiada
evacuem suas casas e dirijam-se ao palácio presidencial. No entanto, quando
estão todos agrupados para entrar no Palácio, uma aeronave com a insígnia da Capital
despeja bombas sobre os civis. Isso quebra definitivamente o moral das tropas
restantes, e Snow perde a guerra.
Obviamente, o ditador não
seria maluco a este ponto, e o que ocorre de fato é o bombardeamento dos civis
pelo comando dos rebeldes. A presidente Alma Coin, finda a guerra, declara-se
presidente interina, por tempo indeterminado, e propõem o retorno dos Jogos
Vorazes como forma de aplacar a sede de vingança do povo dos distritos. Aí
ocorre a reviravolta que dá fim ao filme e à história.
Em alguns aspectos, a
trama parece inspirada na revolução russa; em outros, na revolução francesa. Em
certa medida, dá a ideia de que as revoluções não fazem mais que trocar os
tiranos, a um custo muito elevado em vidas humanas. A democracia, instaurada ao
final, é antes um acidente, um deus ex
machina imposto por um único indivíduo que usa sua mira para mudar a
história. E a democracia, no fundo é só um método pacífico para a troca regular
de tiranos.
Li em Mario Ferreira dos
Santos que as revoluções são como Saturno, pois devoram seus próprios filhos.
Hunger Games passa exatamente esta impressão, o que é um grande mérito para um
filme focado no público jovem. Também da um sentido muito grande à luta pela
liberdade, por mais que esta liberdade signifique o risco de perder o conforto
e pouco que temos. Mas não se luta pela liberdade em si; luta-se pelo ideal de
ver o fim das mortes sem sentido impostas por um Tirano.
Comentários