COMO VARIAM OS PREÇOS DOS COMBUSTÍVEIS
COMO VARIAM OS PREÇOS DOS COMBUSTÍVEIS
Por Fernando Ferro
Hoje pela
manhã, numa maravilhosa segunda-feira de frio e chuva em Curitiba, eu levava
meu filho para escola enquanto ouvia a BandNews, especificamente os comentários
matinais do Boechat. A indignação do dia era o fato de que, apesar da redução
de R$ 0,46 no preço do diesel, o precioso líquido continuava mais caro que
antes da greve. E a questão toda era: por quê?

Pois para
entendermos uma cadeia relativamente complexa como a dos combustíveis, talvez
sejam necessários conhecimento que vão além do B+A=BÁ, porque mais atores fazem
variar o preço destes insumos/bens de consumo. E quando se trata de mercado, os
preços sempre oscilam de acordo com a oferta e a procura. Mas isso não
significa que os preços sejam formados apenas a partir da oferta e procura.
E em
termos de formação de preços, temos algumas variáveis que devem ser
consideradas. Primeiramente, no caso de todos os combustíveis de origem
mineral, o fato básico formador do preço é o Petróleo. Este é o insumo básico,
de original natural/mineral, cujos valores oscilam uniformemente no mercado
mundial. A variação do preço do petróleo decorre da oferta e da procura, que é
influenciada pelos humores geopolíticos de vários personagens.
Cada poço
de petróleo no mundo possui um valor base de custo. Extrair petróleo na Arábia
Saudita ou na Venezuela custa, em geral, pouco menos de US$ 1,00 o barril. No
Mar do Norte, de onde a Inglaterra e a Noruega entre outros países extraem o
seu, o custo fica ao redor de US$ 20,00 o barril. No caso do pré-sal
brasileiro, o custo de exploração oscila em torno de US$ 70,00 por barril. Isso
significa que, de acordo com a variação no preço internacional do barril,
determinadas regiões produtoras entram com mais força no mercado, aumentando a
oferta e, consequentemente, forçando o preço para baixo. A Opep, que é o maior
cartel do planeta, também faz oscilar a oferta de acordo com o preço. Caindo o
preço, eles restringem a oferta, e a medida que ele sobe, eles colocam mais
óleo à disposição do mercado.
Desta
forma, a oscilação no preço do petróleo acaba sendo sempre relativamente
controlada, variando em maior intensidade em eventos como guerras ou
expectativa de guerras. A grande alta no preço desta commoditie ocorrida nos
anos 2000 derivou do aumento exponencial do consumo chinês, freado em seguida
pela crise de 2008/09.
Uma vez
extraído o petróleo, quem entra em cena são as refinarias. O custo para refinar
o petróleo e transformá-lo nos derivados mais utilizados varia relativamente
pouco, mas ainda assim possui uma influência fundamental na formação do preço.
Dependendo o tipo de óleo, se mais pesado ou mais leve, os custos para obter
gasolina e diesel variam bastante. A destilação do petróleo permite obter
maiores ou menores quantidades de cada um destes insumos. Mas a variação entre
eles depende da quantidade de energia dispensada para obter cada subproduto.

Após o término do processo de refino, deve-se
destacar que à gasolina é adicionada uma quantidade de etanol anidro (sem
água), que chega a 27% por força da lei brasileira. Ou seja, ao preço da
gasolina que é vendida ao consumidor (chamada tipo C), 27% do preço corresponde
ao custo do etanol, cuja origem está nas lavouras e não nos poços do oriente
médio. Ao diesel é adicionada uma pequena quantidade de óleo vegetal, que uma
vez refinado transforma-se em biodiesel. No caso brasileiro essa adição
corresponde a cerca de 2% do volume total, e novamente o preço deste insumo
encontra-se na lavoura.
Da refinaria, o diesel passa às distribuidoras.
No caso brasileiro essa é a primeira etapa que não depende de um monopolista,
no caso a Petrobrás. Existem diversas distribuidoras; Shell, BR, Texaco, Sol,
Ipiranga, BR distribuidora, que são as responsáveis por levar o petróleo da
refinaria para os postos de combustível. A distribuidora possui custos
relacionados ao armazenamento, distribuição e revenda dos combustíveis. Cada
uma delas possui uma rede de postos fidelizados, que só podem adquirir
combustível destas distribuidoras, mas também podem oferecer seu combustível
aos postos sem bandeira. Estes podem adquirir livremente o combustível de
qualquer distribuidora. Aos custos da distribuidora, que inclui o custo do
combustível adquirido na refinaria, é adicionado uma margem para remunerar o
capital dos acionistas de suas empresas. Ou seja, além dos custos, temos a
margem de lucro da distribuidora.

Ou seja, para um dado preço do diesel ou da gasolina
na refinaria, são adicionados vários outros custos de independem da flutuação
do preço do petróleo. Estes custos são genericamente chamados de “margem do
distribuidor” e “margem do varejo”. Os valores oscilam, mas pode-se tomar uma
média. Toma-se uma referência de que, a diferença entre os custos da refinaria,
mais os impostos, cerca de 3,9% do preço final da gasolina se distribui entre a
margem do varejo e a margem da distribuição. No caso do diesel a margem da distribuidora e
do varejo era um pouco maior, cerca de 9% do preço final.
A partir desta conta chega-se a um valor presumido
de venda, sobre o qual é calculada a fatia do leão. O governo calcula os seus
impostos a partir do preço presumido de venda, porque é aplicada uma “lógica”
chama substituição tributária. Ou seja, é aplicada uma alíquota de impostos a
partir do preço de revenda do combustível. Isso faz com que se pague um imposto
que considera, além do valor das margens do distribuidor e do varejista e do
preço na refinaria, o valor dos impostos pagos. Com isso, apesar da alíquota
nominal de cerca de 29% para o ICMS sobre a gasolina e 12% sobre o diesel, o
ICMS acaba representando cerca de 19,8% do preço do diesel na refinaria e cerca
de 63% do preço da gasolina na refinaria.
Agora explicando porque os preços não oscilaram
para baixo ainda, apesar da redução da fatia do leão. A razão básica deste
processo é simples, e agora sim está relacionada a oferta e procura. No auge da
greve, a gasolina virou um produto muito mais escasso que a procura. No Paraná
costuma-se vender cerca de 5,85 m³ de gasolina por dia por posto. Os postos em
geral possuem estoque para 2 dias. Nos dias da greve, a procura por combustível
aumentou repentinamente. As pessoas passaram a estocar combustível em seus
carros, comprar combustível em galões, e correr para manter o tanque de seus
carros sempre cheio. A frota de automóveis de Curitiba é de cerca de 980 mil
veículos, o que implica numa capacidade de armazenamento nos tanques de
combustível de cerca de 48,9 mil m³. Isso significa que, de uma hora para a
outra, a demanda por combustível explodiu, e as pessoas passaram a consumir muito
mais que os 5,85m³ por dia, por posto.
Oras, como o desespero também levou as pessoas
a não se importar com o preço pago, os postos puderam aumentar sua margem de
venda, aproveitando o momento para lucrar mais. Ou seja, a gasolina que era
encontrada por até R$ 3,89 o litro em alguns postos, passou para R$ 4,39 em
média. Como o preço presumido da gasolina é de R$ 4,12/l, o percentual dos
impostos caiu “relativamente” ao preço final da gasolina, o que levou a um
aumento significativo da margem de varejo/distribuição. Veja que ao preço de
4,12, que é o valor presumido da gasolina, a margem dos postos fica ao redor de
R$ 0,02/l e a do distribuidor em cerca de R$ 0,01/l. Já a R$ 4,39, a margem do
posto fica ao redor de R$ 0,17/l. Isso permite um aumento de 800% na margem.
No caso diesel, o preço de venda, no caso do
Paraná, permaneceu ao redor de R$ 3,35/l antes e após a redução do preço anunciado
pelo governo em decorrência da redução de impostos. Ou seja, ao zerar a CIDE e
o Pis/Confins sobre o diesel, o governo permitiu que o varejo e a distribuição
aumentassem sua margem de cerca de 9% para mais de 29% do preço final. E o
consumidor continuou consumindo diesel normalmente porque não sentiu a variação
no preço dos combustíveis, ou seja, apesar da redução na carga tributária, os
empresários das distribuidoras e do varejo aproveitaram a “inelasticidade” da
demanda por combustíveis para aumentarem/reporem suas margens, que podiam ou
não estar defasadas. Obviamente, dentro de alguns dias as pessoas poderão
reduzir levemente o consumo de diesel e gasolina. Isso fará com que os postos
voltem a brigar por consumidores. E com isso a margem deverá cair também à
patamares mais aceitáveis.
Ou seja, como as pessoas não reduziram a
demanda, e continuam abastecendo como se não houvesse amanhã, os postos não têm
um motivo razoável para reduzir os preços na bomba. E essa redução só irá
ocorrer a medida em que voltar a haver concorrência entre os postos e o
consumidor, agindo de forma mais racional, reduzir seu consumo de combustível
em função do aumento do preço.
ADENDO RELACIONADO AO MÉTODO DE COBRANÇA
A cobrança de impostos por meio do preço presumido
é uma forma de se cobrar uma alíquota efetiva muito maior do que aquela
praticada caso a cobrança fosse no destino final, como aliás deveria ser a
cobrança de ICMS e PIS/COFINS. Isso porque o preço presumido sobre o qual é
aplicada a alíquota inclui além dos valores de margem o próprio valor presumido
do imposto.
Além disso, é cobrada a mesma quantidade de
impostos sobre os postos que vendem o combustível acima ou abaixo do preço
presumido. Ou seja, se o preço presumido do litro é de R$ 4,00, mas a média
praticada em Curitiba é de R$ 3,90 e a praticada em Londrina é de R$ 4,30, o
consumidor de Londrina paga menos impostos que o de Curitiba; o seja, a
alíquota final do ICMS é muito maior em Curitiba que em Londrina.
Os governos adotam essa “malandragem”
tributária porque desta forma os impostos são cobrados diretamente nas
distribuidoras, e não nos postos de combustível. Assim, há uma alíquota
homogênea para um produto cujo valor de revenda não é homogêneo. Ainda por
cima, o correto seria a cobrança de impostos pelo valor agregado ao produto, e
não uma alíquota fixa sobre o valor final. Ou seja, implicaria numa maior
justiça tributária se o imposto fosse aplicado não sobre o valor final do
produto (que inclui o valor de outros impostos já pagos, como por exemplo o
IPI, que está no preço do produto saído da refinaria, o Imposto de renda e
eventualmente impostos sobre a importação), mas sobre o valor agregado, que é a
diferença entre o valor de entrada e o valor de saída.
Ou seja, se a distribuidora compra a gasolina
da refinaria por R$ 2,01/l, e revende ao posto por R$ 2,13/l, que depois
adiciona sua margem de R$ 0,17/l, o imposto deveria ser cobrado sobre R$ 0,29/l
adicionado ao longo da cadeia distribuidora. Isso implicaria num valor de ICMS
de R$ 0,08/l e de PIS/COFINS de R$ 0,05/l, e não de R$ 1,19/l e R$ 0,78/l como
é o caso atual. Isso somado aos R$ 0,10 da CIDE, resultaria num valor de
combustível de R$ 2,53 ao consumidor final, já contando as margens dos
distribuidores, donos de postos e os impostos, muito diferente dos atuais R$
4,39.
Isso porque, considerando que a gasolina custa R$
2,01/l, os impostos equivalem a 98% do preço do litro de combustível, muito
acima da alíquota nominal de 29% para ICMS e cerca de 19% de PIS/COFINS. Essa
injustiça tributária se reflete em muitos setores: energia elétrica, telefonia,
internet, tabaco, bebidas, combustíveis, lubrificantes, etc.
Da mesma forma os impostos cobrados através do “SIMPLES”
e outras estratégias de se “simplificar” a tributação que implicam, ao final,
em um aumento descarado da carga tributária. Países desenvolvidos e vários
países em desenvolvimento adotam os Impostos sobre Valor Agregado, que trazem
muito mais dinamismo à economia. Atualmente, no caso brasileiro, a maior parte
da arrecadação está ancorada em poucos setores da economia. Isso faz com que os
insumos se tornem muito caros (energia, mão de obra, combustíveis, telefonia),
retirando a competitividade de segmentos industriais que poderiam crescer muito
mais com insumos mais baratos.
Essa é a razão pela qual uma reforma tributária
é urgente, para acabar com essas “malandragens” tributárias e tornar a
arrecadação de impostos um instrumento para a alavancar o desenvolvimento e não
apenas para manter o status quo funcionando.
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