REVOLTA CONTRA A LEI
Fernando Raphael Ferro

Os caminhoneiros estouraram a greve,
supostamente, por causa do aumento do preço do diesel. De fato, em pouco mais
de um ano, os aumentos foram significativos. E diante de uma situação de crise,
os caminhoneiros não conseguiram repassar os aumentos para o valor do frete.
Então a revolta, que resultante em greve, e todo o caos que trouxe ao país.
De fato, o Brasil é um país predominantemente
rodoviarista. Até argumentaram na imprensa que nossa matriz de transporte
possui um percentual parecido de cargas transportadas por rodovia que os EUA.
Em termos de TKU, nossa matriz se assemelharia a divisão dos EUA.
No entanto, duas coisas devem ser tomadas. Dos
30% das cargas transportadas por ferrovia, a maior parte é composta de três
produtos: minério de ferro (quase 100% transportado por ferrovia); soja e
açúcar. Atualmente, a malha paulista que é a mais relevante do país, serve
basicamente para o transporte de açúcar do interior ao litoral. E mais de 90%
da carga ferroviária circula em trechos voltadas para atender a demanda das
mineradoras. Em termos de produtos industrializados e semi-industrializados,
praticamente 95% da carga depende de rodovias. Se tirarmos o percentual
direcionado por dutos, que é basicamente o petróleo e o gás natural, todo o
restante da economia depende de caminhões.
Assim sendo, seria normal imaginar que o frete
rodoviário no Brasil deveria ser caro e amplamente valorizado. Mas numa
economia capitalista, uma coisa não implica em outra. Diante desta dependência
absurda do modal rodoviário, historicamente o Brasil sempre subsidiou o setor
de transporte por caminhões. Até pouco tempo atrás, por meio do FINAME era
possível adquirir caminhões com juros nominais de 2% ao ano, ou seja, juros
reais negativos. Isso num país em que a inflação sempre foi alta, acima dos 4,5%
esperados pelo BACEN. Em tempos recentes, os subsídios se reduziram, mas ainda
assim a frota de caminhões cresceu muito acima da demanda por transporte. Tendo
em vista a crise, a demanda por transporte cresceu ao redor de 2% ao ano,
enquanto a frota de caminhões cresceu mais do que 4% ano na última década.
Como resultado, obviamente, os fretes caíram. E
soma-se a este incremento da frota uma outra medida: a racionalização do
transporte de mercadorias, sobretudo commodities, em vários portos, que reduziu
o tempo de viagem entre os caminhões. Segundo o governo no Paraná, o tempo
médio de espera de uma caminhão para descarregar em Paranaguá passou de 4 dias
em 2010 para 4 horas em 2018. Só isso já representa uma “expansão” virtual da
frota, porque os caminhões podem girar mais e, consequentemente, oferecer mais
fretes no mesmo período.
Numa situação em que o diesel está com preço
crescente, e sendo esse o principal insumo do caminhoneiro, seria natural
esperar um descontentamento. Numa economia de mercado normal, os competidores
menos capazes seriam expulsos do mercado. Falências entre transportadoras, e
redução no número de autônomos deveria ser o resultado esperado. Mas como no
Brasil boa parte dos caminhoneiros são autônomos, e sendo estas pessoas donas
do seu caminhão e, na maioria das vezes, inabilitados para trocar de profissão,
o que acontece é que o número de caminhoneiros e a oferta de frete não se
reduziu como esperado.
Ao invés dos preços chegarem a um equilíbrio,
que permitisse ao segmento de manter com margens suficientes ao menos à
reposição do capital, o que temos é uma queda contínua do valor do frete.
Incapazes de suportar as forças do mercado, os caminhoneiros partiram para a
luta política. No entanto, as medidas propostas pelos caminhoneiros continuam
sendo atitudes de revolta contra a lei da oferta e da procura, e certamente
seus efeitos serão opostos ao que se espera.
Entre as reivindicações estão, por exemplo, a
criação de um valor mínimo para o frete. Além disso, pedem a redução do preço
dos insumos. Essas medidas, obviamente, irão criar um subsídio na economia,
encarecendo o frete. E ao invés de desestimular a atividade, irão, certamente,
atrair ainda mais aventureiros à profissão. Afinal, só subsidiamos uma
atividade quando queremos mais dessa atividade. A imposição de um preço mínimo
no frete ira incentivar ainda mais caminhoneiros. E a situação deste mercado
ficará ainda pior no médio prazo. Quanto mais a atividade for protegida e
subsidiada, mais pessoas irão entrar neste mercado.
Os caminhoneiros, no fundo, deveriam estar
lutando contra a expansão da base de caminhoneiros. Deveriam, se fossem agir
logicamente no pedido de uma intervenção, estar pedindo a redução da base de
caminhoneiros. Ou seja, deveria ser tornar cada vez mais difícil possuir um
caminhão, ter a habilitação para dirigir um caminhão, ou ainda manter um
caminhão antigo na estrada. Deveriam pedir a atuação do Estado no sentido de
tornar a atividade mais profissional, afastando os aventureiros. Desta forma, a
expansão da oferta seria, talvez inferior à da demanda, o que permitiria repor
margens e preços no médio prazo. Isso levaria a um aumento natural dos preços,
sem a necessidade de subsídios.
Essas atitudes, obviamente, impediram a
categoria de se unir como acontece no momento, visto que muitos dos “caminhoneiros”
seriam prejudicados por medidas de restrição ao mercado. No entanto,
certamente, seria mais racionais. Na atual situação, busca-se travar uma luta
contra a lógica, que obviamente já está perdida. Por mais que alguns poucos se
beneficiem no curto prazo, em pouco tempo, esses mesmos estarão já disputando
espaço com uma base crescente de caminhoneiros, fadados a pedir mais subsídios
ou a serem estrangulados pela implacável lógica de mercado.
Comentários