A ARTE NAS TERRAS DO PINDORAMA
Por Fernando Raphael Ferro
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Um dos quatros expostos em Porto Alegre patrocinados pelo Bancos Santander, via Lei Rouanet, obviamente. |
Diversas foram as manifestações favoráveis e
contrárias as exposições ocorridas no Rio Grande do Sul e em São Paulo onde
obras de arte foram alvo de contestações e defesas acaloradas por parte da “direta”
e esquerda respectivamente. No primeiro caso, uma exposição patrocinada pelo
Santander, com obras que expunham cenas de zoofilia, homoerotismo e sexo
grupal, aparentemente voltada para público escolar, levaram a um boicote de
diversos clientes contra o banco Santander, o que precipitou seu fechamento.
Na outra, em São Paulo, uma “performance”
realizada por um homem nu, da qual uma criança acompanhada de sua mãe
participou, causou escândalo e acusações de “pedofilia”, apesar do uso
claramente fora de contexto do termo. Mas novamente a abertura de uma exposição
com conteúdo adulto ao público infantil, ainda que acompanhado de pais, causou
revolta e trouxe à baila a discussão sobre o conceito de arte no Brasil.
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Performance os Macaquinhos. R$ 10 milhões recebidos via Lei Rouanet. |
Pipocaram nas redes sociais memes destacando o
fato de que grupos de canto, teatro e orquestras foram encerrados por falta de
patrocínio enquanto performances no mínimo estranhas, como Os Macaquinhos, foram
agraciadas com quantias milionárias via lei Rouanet. O tema já é antigo, tendo
em vista que tempos atrás foi igualmente contestado o recurso repassado ao show
da Claudia Leita via Lei Rouanet, enquanto artistas “populares” vivem à míngua.
Mas sem querer defender os conceitos de arte empregados,
ou a validade das requisições, quero simplesmente apontar um fato aqui no
Brasil: arte, popular ou não, é algo completamente alheio a grande maioria da
população. Mesmo entre a classe média alta e a elite nacional há pouquíssima
valorização da cultura artística. Ocorre também um completo descolamento entre
as manifestações autênticas de cultura popular, no campo da música, teatro,
dança, pintura e artes plásticas e aquelas manifestações que são patrocinadas
oficialmente pelo Estado. E um fato que deve ser destacado é que, sabemos que
não há arte sem formação artística. E hoje, no Brasil, a formação artística da
as crianças ocorre por meio de três instituições apenas: as famílias, algumas
ONG’s e as Igrejas.
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Raridade no Brasil. Escultura em argila é uma das habilidades humanas mais antigas. |
As famílias atuam neste sentido por meio das
atividades extracurriculares nas quais colocam seus filhos. Aulas de balé,
violão, guitarra, flauta, teatro, pintura, escultura, etc. complementam as
atividades de milhares de crianças de classe média Brasil afora. Da mesma forma
as atividades desportivas são amplamente patrocinadas pelas famílias.
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Aulas de Balé: quase todo ensino de Balé no Brasil é privado. |
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Aulas privadas de pintura: privilégio bancado pelos pais. |
No caso das ONG’s, vemos algumas organizações
com dinheiro estrangeiro e outras que buscam nas leis de incentivo à cultura e
esporte recursos para promover essas mesmas atividades extracurriculares para
crianças de baixa renda em comunidades pobres ou então como complemente às
atividades realizadas nas escolas públicas. Muitas vezes, essas ONG’s não
passam de fachadas para objetivos políticos; mas na maioria das vezes, acredito
eu, fazem parte de um esforço sincero de promoção das artes, apesar de sofres
dos mesmos males das atividades bancadas pelas famílias.
Por fim, temos as Igrejas. Posso afirmar sem
medo de errar que hoje, no país, a maioria absoluta dos músicos eruditos
começaram sua formação dentro de igrejas. E principalmente dentro das chamadas
igrejas evangélicas. Metodistas, presbiterianos, mórmons, testemunhas de Jeová,
assembleianos, etc., por conta de demanda de seus serviços internos, formam
bandas e corais que são o primeiro contato das crianças com a música. Mas
também, muitas vezes, com o teatro e outras formas de arte. Neste particular, o
Brasil leva uma grande desvantagem sobre os EUA pelo fato de ter uma maioria
católica, uma vez que a Santa Madre investe pouco na musicalidade de seus
cultos.
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Banda de Igreja: no futuro alguns irão tocar em bares; outros irão para orquestras. |
Destas três “instituições”, obviamente, as
igrejas são as que possuem a maior capilaridade no país. Nem todos os
municípios tem oferta ao ensino privado de música, balé, pintura, esculturas; as
ONG’s geralmente concentram-se em grandes cidades e nos locais de maior
visibilidade. Mas todos os rincões do país possuem uma igreja. E toda igreja
possui um violão ou algum outro instrumento musical que irá iniciar as crianças.
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Carnaval é uma manifestação artística popular multidisciplinar: Música, Escultura, Pintura e Dança num só lugar. |
O contato com a música “erudita”, inclusive, se
dará na maior parte das vezes dentro das igrejas também, visto que orquestras
sinfônicas, filarmônicas e demais gêneros são produto raro no país. No final
das contas, a única grande manifestação artística de apelo popular patrocinada
pelo Estado no Brasil, que atinge diversas pessoas acaba sendo o Carnaval.
Mesmo assim, sabemos que hoje os grandes desfiles de São Paulo e Rio de Janeiro
têm cada vez mais uma rejeição muito grande no país. E as festas tradicionais
populares são levadas adiante por músicos que iniciaram sua formação, na
maioria esmagadora das vezes, por um desses três meios: recursos próprios das
famílias, ONG’s e igrejas.
O descolamento da “arte” oficial patrocinada
via lei Rouanet e a arte popular não chega a ser um verdadeiro descolamento:
antes é um sintoma de uma país para o qual não existe arte popular fora das
manifestações tradicionais. E devemos lembrar ainda que tanto o carnaval
quantos as festas juninas são festas tradicionais ligadas diretamente à
tradição religiosa. Ou seja, no fundo, não há hoje, no Brasil, qualquer base
sobre a qual possa se erguer uma “arte” legítima, patrocinada voluntariamente
pelo povo.
Sem formação, sem um trabalho constante de
educação, não teremos uma mudança. E não há Lei Rouanet que resolva isso.
Manifestações artísticas patrocinadas pelo dinheiro da bilheteria são tão
prováveis quanto atletas de alta performance bancados por patrocinadas em áreas
como atletismo e ginástica rítmica. São modalidades que seriam obviamente
extintas no país.
Acredito que o local para a formação é a
escola. Vivo destacando que além de ensinar as letras e os números, a escola
tem um papel fundamental na educação física e artística das crianças. Além disso,
a escola serve para a preparação profissional (ensinar a cumprir regras,
horários, socialização, regras de convívio fora do ambiente familiar), e
sabemos que ela está complemente fora da sua atuação nos dias atuais.
Portanto, não adianta bradar contra a arte moderna
no país. Nem dos últimos hits musicais. Porque no fundo, o problema é um só. É
o mesmo da produtividade da economia. O mesmo da criminalidade, da violência,
da quebra dos valores, da mortalidade no trânsito. O problema do Brasil é a
educação. Sem uma revolução nesta área, continuaremos a ser essa grande cloaca
na América Latina.
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