RESENHA: LOS ANGELES: A ARQUITETURA DE QUATRO ECOLOGIAS, DE REYNER BANHAM.
Por Fernando R. Ferro de Lima.
Em
partes os méritos derivam do objeto de estudo: Los Angeles já foi alvo de
outros textos neste blog, alguns críticos, embalados, sobretudo, pela leitura
de Mike Davis e Jane Jacobs. O primeiro, em A Ecologia do Medo, descreve um
panorama sinistro da 2ª maior metrópole da América, com uma ameaça
catastrofistas típica dos marxistas terceiro mundistas. A segunda, certamente
uma das pessoas mais influentes em termos de planejamento urbano e recuperação
de áreas degradadas, tem uma visão pessimista de Los Angeles, porque sua
configuração suburbana é o exato oposto do que ele considera como uma cidade
ideal.
Hoje
eu consigo perceber que parte do ódio em relação aos subúrbios deriva de um
antiamericanismo que não possui exatamente raízes racionais. Reyner Banham, que
era um entusiasta da segunda era da máquinas, como ele chamava o mundo pós
segunda guerra mundial, debruçou-se sobre Los Angeles, para extrair dela o que
havia de melhor. Sua empresa começa com a divisão da cidade a partir do que ele
define como as quatro ecologias: a surfúrbia, as encostas, as planícies, e a
autópia. Os termos em si já trazem algo do que se encontra na cidade.
A
surfúrbia trata da arquitetura (e engenharia) desenvolvida na beira mar. Los
Angeles é a maior metrópole praiana do mundo, rivalizando apenas com o Rio de
Janeiro. Esta é uma das afirmações que encontramos no livro. No entanto, Los
Angeles consegue uma ocupação mais intensa e característica da Costa porque, no
fundo, possui mais áreas de costa que o Rio de Janeiro. E ao longo deste
litoral, desenvolve-se uma cultura e arte, manifestas nas pranchas de surf, no
estilo das casas e no modo como a costa é ocupada, com seus longos píeres, seus
portos artificialmente construídos, que dá a Los Angeles e aos angelinos uma de
suas principais características: certo desprendimento material daqueles que
vivem apenas para curtir o sol e as ondas. Uma cultura que é o oposto da vida
dura de trabalho a qual se dedica grande parte da população dos EUA.
A
segunda ecologia, a das encostas, trata do modo como as colinas desfiladeiros e
cânions levaram a um tipo especial de arquitetura: como foram conquistadas as
encostas e muitas vezes a necessidade de adaptá-las que que aceitassem o modo
tradicional de construção americano. Mas as encostas criaram também vistas, uma
arquitetura que tira proveito do que se vê, sejam as imensidões das planícies,
ou ainda a natureza quase selvagem dos desertos e oceanos.
Na
terceira ecologia é que se encontra a Los Angeles que vem a cabeça de todos: os
imensos subúrbios, que se estendem de norte a sul, realizando o sonho da
fazenda urbana: casas com amplos jardins, relativamente isoladas umas das
outras, garantindo um espaço de privacidade para cada um de seus moradores, que
os cerca e isola.
Por
fim, a autópia. Afinal, Los Angeles é mundialmente conhecida por suas freeways,
que cortam a cidade em todas as direções. Certamente, os angelinos estão entre
os seres humanos que mais dirigem em toda a humanidade, sem que isto os torne
piores. Banham inclusive afirma que é muito melhor dirigir em Los Angeles que
em Londres, sua terra natal, ou qualquer outra grande cidade. E que a
comodidade oferecida pelo automóvel dificilmente seria superada por qualquer
outra forma de deslocamento. Los Angeles e suas autopistas, sua cultura de
personalização de veículos, e os hábitos criados pela circulação constante
mostrariam o futuro de todas as grandes cidades do mundo.
Na
descrição da origem desta cidade gigantesca e sui generis, o autor também
mostra que antes de ser a causa de Los Angeles, o automóvel era consequência de
sua configuração inicial. Foram os trens que tornaram possíveis os diversos
núcleos que integrariam a metrópole, e a Southern Pacific teve um papel
decisivo. As freeways, ao menos as primeiras, foram construídas ao longo das
linhas férreas eletrificadas, com vistas a resolver os problemas causados pelos
conflitos de direito de passagem entre trens e carros e também para contornar a
lentidão causada pelo excesso de paradas.
A ferrovia urbana, portanto, foi
a responsável pelos primeiros subúrbios. Mas ao contrário de outras grandes
cidades, que resolveram estes problemas através da criação de redes de metro,
Los Angeles nunca foi caracteriza por uma migração pendular bem definida, pela
própria ausência de um núcleo predominante sobre os demais. Seu policentrismo,
permitiu que o automóvel se tornasse o meio predominante de transporte, em
partes por sua comodidade e capacidade de chegar a todos os lugares.
Depois
de tudo isso, deve-se destacar ainda que o livro é um passeio pela arquitetura
moderna de Los Angeles, que na opinião do autor é uma das melhores e maior
qualidade do mundo ocidental, manifesta menos em seus edifícios públicos e mais
em suas casas, que são variadas e inovadoras em diversos aspectos. Por tudo
isso, os temas abordados e uma defesa do automóvel e das autopistas, o livro é
uma leitura apaixonante.
Comentários
Acho que foi M.Davis ou algum desses críticos que chamou LA de "não cidade", justamente devido a ausência de um centro integrador.