INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA
Por Fernando R. F. de Lima.
Normalmente, para avaliar a viabilidade de um
investimento em infraestrutura são consideradas algumas variáveis chaves que
dizem respeito, basicamente, a três dimensões: econômica, técnica e ambiental.
Ás vezes pode se considerar uma quarta dimensão, mais difícil de mensurar, que
seria a social. Do ponto de vista técnico, é necessário que haja tecnologia
disponível para poder realizar a obra. Imagine construir um túnel ferroviário
ligando São Paulo a Curitiba. Agora pense na viabilidade técnica de se fazer
esta obra. Será possível? Há tecnologia disponível? O relevo tornaria viável
esta obra? Não haveria alternativas mais razoáveis?
Do ponto de vista ambiental, ocorre o mesmo.
Ao imaginar uma extensão da BR-101 no litoral de São Paulo e Paraná, passando
por Guaraqueçaba, cabe a pergunta: qual seria o impacto disto sobre a maior
área contínua preservada de mata atlântica? Quais os impactos sociais deste
tipo de rodovia? Como ficaria a fauna e a flora? Não haveria localizações em
que o impacto sobre estas variáveis seria menor?
Por fim a dimensão econômica, que deve ser
respondida quando a técnica e a ambiental foram definidas. Qual o custo da
obra, os benefícios advindos de sua construção e, uma última pergunta muitas vezes
desprezada, o que seria possível fazer com este dinheiro ao invés desta obra?
No caso do trem bala, em que pese as dúvidas
no que diz respeito a viabilidade técnica e ambiental, tanto pelo relevo, quando
pelas características da biológicas da área atingida, há seria dúvidas quanto a
viabilidade econômica desta obra. Certamente, se uma passagem (observem bem o
SE no começo da frase) de trem-bala custasse o mesmo que uma passagem de avião
e a viagem demorasse o mesmo tempo, as pessoas prefeririam o trem, por conta da
maior previsibilidade de operação e da possibilidade de integrar sua linha
diretamente com as áreas centrais das cidades.
No entanto, os primeiros custos estimados
apontam para mais de R$ 35 bilhões para a implantação deste trecho ferroviário,
sem contar o dinheiro dispendido na compra e operação dos equipamentos. Com
isso, dificilmente o custo de uma passagem de trem bala seria semelhante ao de
uma passagem de avião. A rigor, em nenhum país do mundo o trem bala e similares
poderiam ser custeados integralmente pela iniciativa privada. Isso porque há
uma segunda pergunta a responder: não haveria usos alternativos mais lucrativos
deste dinheiro?
Uma ferrovia convencional, para o transporte
de cargas, custa em média R$ 5 milhões por km. Em áreas planas este custo é
menor, ao redor de R$ 3 milhões, enquanto em áreas montanhosas por chegar a R$
10 milhões por km. Mas considerando os R$ 5 milhões por km, R$ 35 bilhões
seriam suficientes para a construção de 7 mil quilômetros de ferrovias
convencionais. Com uma malha atual ao redor de 28 mil quilômetros, seria
possível ampliar em 25% a malha total com o mesmo investimento, o que num país
com carências tão grandes na área ferroviária, seria significativo.
Outras opções seria gastar o mesmo dinheiro
na construção de linhas de média velocidade, que permitissem integrar cidades
com trens que viajassem em velocidades de até 200 km/h. Seria suficiente para
melhorar significativamente o transporte entre cidades como Rio de Janeiro e
São Paulo (cerca de 400 km), o que poderia ser feito ao redor de 2:30 horas. Ou
criar uma rede de trens regionais ao redor da grande São Paulo.
Quando se pensa nestas possibilidades,
nota-se que o trem-bala não possui qualquer sentido que não o eleitoral. Além
disso, não possui viabilidade econômica por meio do investimento puramente
capitalista, sendo necessária a intervenção e o subsídio estatal. Até aí, tudo
bem, porque dificilmente grandes investimentos são atrativos para que a
iniciativa privada os banque sozinha. Por isso a figura das PPP’s, Parcerias
Público-Privadas. Este modelo normalmente funciona quando ao menos a operação
do investimento mostra-se rentável, uma vez que o conjunto construção-operação
dificilmente o é para investimentos de grande monta.
Rodovias, por exemplo, são facilmente
rentáveis no modelo de exploração por cobrança de pedágio. Mas a construção e
posterior operação dificilmente tornam-se rentáveis num prazo de 30 anos, a não
ser que a demanda seja muito elevada ou então o preço cobrado muito alto, o que
acaba dispersando o tráfego para outros caminhos.
Deve-se, portanto, atentar para o fato de que
investir em infraestrutura não é garantia de aumento da riqueza em uma
sociedade, porque investimentos mal feitos só serão benéficos para as empresas
envolvidas diretamente no negócio, e dificilmente para a população como um
todo. E bons investimentos exigem um rigoroso equilíbrio entre a viabilidade
técnica, econômica e ambiental.
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